Duas Ou Três Coisas Que Eu Sei Dela (Jean-Luc Godard, 1967)

ORIGINAL: 2 ou 3 choses que je sais d’elle (1967)
DIRETOR: Jean-Luc Godard
ROTEIRISTA: Catherine Vimenet e Jean-Luc Godard
GÊNERO: Drama
ORIGEM: França
DURAÇÃO: 87 minutos
TIPO: Longa-metragem
COR: Colorido

“Jean-Luc Godard não é o único diretor para quem filmar é como se fosse respirar , mas ele é quem respira melhor.”
– François Truffaut

     O intelectual e subjetivo “Duas Ou Três Coisas Que Eu Sei Dela”,  é um ensaio poético de 87 minutos e um marco do período mais influente da carreira de Jean-Luc Godard. Tão difícil quanto acompanhar o ritmo de raciocínio do diretor durante o filme, é conseguir defini-lo. Godard “quase” desenvolve um drama ao mesmo tempo que “quase” realiza um documentário. Distinguir um gênero para essa obra não é tarefa fácil. Tratando-se de Godard, nada vem sem esforço, contudo não há nada que não o mereça.

   Inspirado por um artigo de revista sobre donas de casa de um conjunto de apartamentos no subúrbio de Paris, que se prostituíam para alimentar o próprio consumismo supérfluo, Godard criou sua personagem, Juliette Janson (Marina Vlady), uma mãe de família, que fora de casa assume o papel de prostituta.

      No entanto, a musa de Godard não é propriamente Juliette, mas Paris sob as medidas capitalistas do governo, priorizando a burguesia ao invés de atender às necessidades de sua maioria de 8 milhões de habitantes. Juliette é uma metáfora, uma representação da cidade, tal como da sociedade, prostituindo-se aos interesses pueris do capitalismo. Uma das falas da personagem expressa bem o estado de espírito político da França, segundo o diretor: “Para me descrever, apenas uma palavra: indiferença.”

      Entrelaçados a um dia comum na vida de Juliette, momentos em que os personagens fazem comentários à parte, dão suas impressões e depoimentos e agem como se estivessem sendo entrevistados. Política, sexo, lingüística, economia e tecnologia são alguns dos assuntos expostos. Cenas barulhentas de construções são tomadas por silêncios súbitos, introduzindo sussuros de Godard, ora divagando, ora citando Wittgenstein, criticando, filosofando, recitando. Em um desses momentos de reflexão, Godard nos presenteia com a antológica cena da xícara de café reproduzindo a galáxia.

           A Guerra do Vietnã, que se estendeu por pouco mais de uma década e meia, ainda supitava no período das gravações do filme. Godard constantemente toca no assunto e critica aberta e duramente a política de Johnson e a participação dos Estados Unidos, que durou entre os anos de 1965 e 1973. No entanto, seu anti-americanismo não se limita à guerra, o diretor usa no filme frases como: “pax americana: lobotomia colossal”, diz ainda que os EUA pisavam sobre os asiáticos e os sul-americanos, dentre outras coisas.

          A construção do longa-metragem através de um encaixe de imagens que ilustrasse as falas foi primordial. A fotografia colorida em Eastmancolor de Raoul Coutard está entre os pontos altos do filme. Ao assistir as obras de Godard, o espectador é impelido à despender esforços de raciocínio lógico e também de pensamento crítico. É como se fôssemos arremessados do comodismo mental.

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