[Coluna de literatura] A metamorfose do Realismo Fantástico – Franz Kafka, o cânone do gênero

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Franz Kafka, por Heitor Vilela (Rabiscos e Escarros). Detalhe para o Gregor Samsa subindo-lhe pela lapela

“Senhor Samsa – bradou então o gerente, elevando a voz -, o que está acontecendo? O senhor se entrincheira no seu quarto, responde somente sim ou não, causa preocupações sérias e desnecessárias aos seus pais e descumpre –para mencionar isso apenas de passagem – seus deveres funcionais de uma maneira realmente inaudita. Estou perplexo, estou perplexo. Acreditava conhece-lo como um homem calmo e sensato e agora o senhor parece querer de repente começar a ostentar estranhos caprichos. O chefe em verdade me insinuou esta manhã uma possível explicação para as suas omissões – ele dizia respeito aos pagamentos à vista que recentemente lhe foram confiados.” Franz Kafka – A Metamorfose

Título: A Metamorfose (Die Verwandlung)

Autor: [František] “Franz” Kafka (Austro-Húngaro) 1883-1924

Data da 1a Publicação: 1915

O que escrever sobre este autor que, de tão influente na literatura contemporânea, transformou-se inclusive em adjetivo (ao que se tem por complicado, labiríntico, surreal de maneira flertada com o real, dá-se o adjetivo “kafkiano”). Honra das maiores, penso eu, é ter o nome transformado em adjetivo pelo legado deixado; tal qual os campeões gregos, que sonhavam que, se vitoriosos em absoluto, os deuses lhes representariam em constelações no céu.

Franz Kafka nasceu em Praga, quando esta cidade ainda o era sob os domínios do Império Austro-Húngaro. Na cidade havia uma clara distinção entre os falantes do alemão e os falantes do tcheco, motivada pela consolidação de uma identidade nacional por parte dos falantes de uma ou doutra língua. Kafka era fluente nas duas, mas considerava sua língua materna a germânica.

O autor nascera de família judaica, seu pai era um modestamente sucedido comerciante (termos eufêmicos para dizer que ele era de classe-média). Completara seus estudos naquela cidade mesmo e em 1906 forma-se em direito. Trabalhou, formalmente, quase toda a vida em uma agência de seguros contra acidentes de trabalho; escreveu durante toda sua vida, mas publicou muito pouco, e, já perto do final, pediu a um amigo próximo que queimasse todos os seus escritos. Felizes de nós que o amigo tenha sido desobediente. Fraquejaríamos todos, penso eu, ante a responsabilidade de não desacatar um amigo moribundo no fim da vida, por um lado, e, por outro, de sermos responsáveis de tamanha barbárie literária e histórica de queimar o conjunto de textos que consolidariam o gênero do Realismo Fantástico.

Em 1917 o autor começou a sofrer do mal que, sete anos mais tarde, levá-lo-ia à cova: Tuberculose. Foram sete anos conturbados, alternados entre o sanatório e a rotina, nos quais o autor nunca deixara de escrever, pois, como ele mesmo dizia: “Tudo o que não é literatura me aborrece”; e depois dos quais foi tomado do mundo, precocemente podemos todos notar.

Precocemente também pela quantidade de escritos inacabados, o autor tinha profunda dificuldade, nos parece, de completar seus textos. O Processo (a mim uma obra-prima), apesar de ter um final, conta com diversos capítulos inacabados em seu decorrer; e O Castelo (outra obra magnânima), interrompe-se sem um final (ainda que saibamos, mais ou menos, como este seria por um relato do próprio Kafka ao mesmo amigo a quem pedira que se queimasse a papelada toda).

Sujeito de esquerda, participou de organizações anarquistas durante a juventude e, apesar de delas divergir depois de um tempo, nunca abandonou o socialismo (e me parece clara a influência materialista em seus escritos). Morreu, ironicamente, não propriamente pela tuberculose, mas porque esta fechara sua garganta, impedindo-o de comer, o que o fez morrer por fome (a alimentação parenteral ainda não havia sido desenvolvida).

Mas vamos à obra que faz até hoje a fama deste autor para com a maior parte dos compradores de livros: A Metamorfose.

Este livro tem uma história curiosa (e prometo que é a última trivialidade antes de entrar no livro, de fato); embora publicado em 1915, foi escrito em 1912 em apenas vinte dias! É curioso pensar que um dos baluartes da literatura contemporânea tenha sido escrito em tão pouco tempo. É fato, o livro não é espesso, mas sua densidade pode ser comparada à do irídio (metal mais denso da terra), uma vez que em tão pouco volume haja tanta “massa”.

O livro nos conta uma acontecimento na vida de Gregor Samsa. Este caixeiro viajante sustentava seu pai, sua mãe e também sua irmã. Era infernizado pelo “gerente do escritório”, pois este o chantageava por virtude das dívidas que sua família tinha, forçando-o a trabalhar sobremaneira.

Este nobre “pai de família”, que carregava todo o fardo da reprodução da vida de seus próximos nas costas (situação em que encontramos tantos casos na vida real) acorda emos-monstros-segundo-a-metamorfose.html mais um dia infeliz como qualquer outro, mas algo lhe ocorre. Ele tenta se virar na cama, para dela levantar, mas não consegue. Está “encalhado”. Consegue, com algum esforço, contemplar sua barriga, mas viu ali não sua barriga habitual, mas “seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas”.

A interpretação que se universalizou é a de que, no livro, Gregor Samsa nos aparece transformado em uma barata, mas é importante frisar, e acho fundamental que todos leiam o livro desta maneira, que o autor em momento algum nos diz expressamente que o seu personagem transformou-se em uma barata. Ele nos diz, já às primeiras páginas, que Samsa “encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”.

A partir desta premissa inicial, o livro teria tudo quanto necessário para ser uma literatura de terror de quinta categoria, não fosse a força descomunal de sua alegoria.

Samsa era adorado por todos, era o filho querido, o provedor admirado. Contudo, de provedor e âncora passa a estorvo e prejuízo, uma vez que, na sua atual condição não eracapaz de trabalhar. E também era um escândalo (uma vez que seus familiares não entendiam o que se passava) cuidadosamente escondido e motivo de vergonha e desapontamento para seus familiares.

Um a um os gestos de afeto e de atenção, de cuidado e de carinho vão fenecendo, na exata medida do esgotamento financeiro da família e do crescente desespero, tanto pela penúria quanto pela situação incompreendida.

Em dado momento a penúria financeira é tal que os familiares se veem obrigados a alugar um dos aposentos da casa para ajudar nas despesas. A partir de então Gregor, o segredo por sua condição, vê-se obrigado a permanecer em seu quarto, o mais silencioso possível, para que não seja descoberto pelos inquilinos, o que poderia fazer com que, pelo horror, abandonassem o imóvel.

E Samsa, em sua condição, cada vez mais perde seus aspectos humanos e passa, antes só em corpo, a ser nos costumes e nas práticas um inseto: furtivo, amedrontado, incapaz de compreender ou de interagir com seus familiares.

Este livro é não só poderoso como é literatura obrigatória para entendermos as raízes da literatura contemporânea. Se quisermos entender autores como Albert Camus, Lourenço Mutarelli e gigantes como Gabriel Garcia Márquez e José Saramago é imprescindível entendermos as influências legadas por Franz Kafka.

post 130x136Ian Caetano é estudante de ciências sociais, comunista, ex-preso e ainda vai escrever um livro

1 comentário Adicione o seu

  1. Também foi minha porta de entrada no realismo fantástico, lá pelos tempos do que outrora foi chamado de “sétima série”. Não sei se hoje em dia as escolas recomendam leituras desse calibre para estudantes tão jovens, mas comigo foi assim. “A Metamorfose” é uma obra-prima, mas se tem um livro de serve de “códice” para a ficção “kafkiana” é aquele que registra suas memórias de família: “Carta ao Pai”. Duro e comovente.

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