O Homem Duplicado – Dica de leitura e breve análise

Por Hugo Oliveira

A multiplicidade de idéias é contida, mas sob pressão, ela continua a existir e se multiplicar. Essa lógica persiste, até que as amarras impostas pela cultura dominante não suportem mais o seu grito e, envolta em entropia, uma sociedade seja forçada a se reinventar. Com os farelos das culturas passadas, se construirão os novos domínios, as novas tendências e modelos de comportamento. Desde a invenção da roda até o ápice da interação com as mídias digitais, a tecnologia sempre esteve presente nos ritos de passagem, seja como inspiração ou ferramenta da transformação.

Neste contexto, a industrialização tirou do campo a tranqüilidade. Separou os sujeitos, padronizou atividades, restringiu o pensamento, estabeleceu normas e acelerou as engrenagens que ditam o ritmo das sociedades. O afastamento e a celeridade incentivaram o cultivo de relações pessoais cada vez mais rasas e os laços das comunidades foram acometidos por uma rápida desintegração.

Esta é apenas uma possibilidade, entre infinitas outras, para explicar a solidão das pessoas na modernidade. A solidão é uma dor e uma curiosidade. Esta duplicidade é um paradoxo de eras que o homem sempre falhou em desvendar. Afinal, como pode a humanidade ser formada por indivíduos sociais se alguns são levados a almejar fortemente o isolamento? Aos que fazem parte do primeiro grupo, esta é uma matéria de curiosidade, aos outros, de dor – facetas que podem se misturar.

Foi um ambiente hostil, mais profundo que esse, que o escritor português José Saramago escolheu inserir a história do professor de História Tertuliano Máximo Afonso, protagonista do romance de O Homem Duplicado, escrito originalmente em 2002 e publicado no Brasil pela Companhia das Letras. Lançado numa época em que os fenômenos psicológicos causados pela ruptura cultural provocada pela industrialização eram ainda menos compreendidos pelos estudiosos, a obra mostra que o autor já previa algumas de suas conseqüências para as cabeças dos mais frágeis, apresentando desdobramentos incrivelmente atuais.

A história

A dicotomia, a ambigüidade, a dubiedade e toda a espécie de duplicação permeiam cada linha da obra. Nas primeiras 200 páginas, o autor apresenta as angústias, manias e a personalidade de Tertuliano. De forma freqüente, o narrador interage diretamente com o leitor, de forma a lembrá-lo de detalhes já mencionados ou para expor detalhes da situação que até mesmo Tertuliano ignora. Ora como onisciente, ora mero observador, o narrador também é um exemplo de duplicado.

Tertuliano é um homem de 38 anos, divorciado, que se culpa pelo fim do seu casamento. Leva uma vida morna em uma cidade grande e evita as pessoas. A persona é marcada por sintomas de ansiedade e faz de cada decisão um delicado suplício.

A todo o momento, Tertuliano pensa os pontos positivos e negativos das situações e, pelo pessimismo característico da patologia, acaba deixando várias coisas de lado. O trabalho o faz conviver com outros professores, com os quais evita qualquer proximidade. Tudo vai bem até que um deles, o de Matemática, lhe indica um filme.

Na película ele se depara com uma cópia idêntica de si mesmo. O fenômeno o choca. Antes um simples indivíduo, com a situação, Tertuliano se vê – repentinamente – protagonista de uma história ímpar ainda desconhecida do público.

A partir daí a ansiedade de Tertuliano se amplia e o sentimento de inquietude o faz promover investigações e tramas para recuperar sua originalidade no mundo, mas também para manter seu anonimato. Na história, porém, Tertuliano é, em si próprio, um duplicado, uma vez que apresenta com seu “senso comum” diálogos com personalidades distintas.

Outra análise possível é que, em razão de sua obsessão, ele abdica de sua quietude para assumir postura decidida, detalhista e impetuosa, ao contrário de sua natureza. Para reaver sua originalidade e identidade Tertuliano desenvolve várias tramas para chegar ao seu duplicado, o ator Antônio Claro. Enquanto isso, sua mãe, Carolina, e sua namorada rejeitada, Maria da Paz, percebem sua movimentação, mas sofrem pelo segredo guardado pelo respectivo filho e amante.

No outro núcleo, Antônio e Helena, sua mulher, tomam ciência do fato juntos, revelação que provoca uma reviravolta na vida do casal. Como conseqüência, surge uma relação de inimizade entre os duplicados.

Crítica social

Com início lento e detalhista, o autor expõe uma história repleta de vaidades, humilhações, romance, traições e morte, em que o individualismo é a principal liga que une os universos dos principais personagens. Se do início à metade, Saramago torna o leitor profundo entendedor das angústias de Tertuliano Máximo Afonso, do meio em diante, o livro se torna um thriller com cenas dignas dos melhores filmes de investigação.

Com a obra, Saramago expõe algumas das feridas mais recentes do mundo contemporâneo. Neste momento de revolução digital, em que as fronteiras geográficas se dissolvem e as relações pessoais se esvaziam, a vaidade é uma das armas mais utilizadas pelos sujeitos digitais para provar suas originalidades.

Como em Saramago, na tentativa de provar o seu valor, os indivíduos do mundo real, protegidos por sua representação virtual podem agredir, humilhar e chantagear, legitimando o “eu” acima da ética social, com intuito de colocar “ordem no caos”, como disse o próprio autor. Sem dúvidas, não há contexto melhor para se dedicar a esta história.

Boa leitura!

o homem duplicadoFicha técnica
Título original: Homem Duplicado, O (pocket)
Autor: José Saramago
Capa: Jeff Fisher
Páginas: 288
Acabamento: Brochura
Selo: Companhia de Bolso
Preço: R$ 24

Hugo Oliveira é comunicólogo, jornalista por formação, escritor e especializando em Comunicação Empresarial e Mídias Digitais. Aficcionado por cultura, escreve sobre literatura, cinema e música nas horas vagas – hugo.socom@gmail.com
Instagram: @hugosocom
Facebook: hugo.oliveira.984

1 comentário Adicione o seu

  1. Um dos meus livros favoritos de um dos meus escritores favoritos!

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