[Coluna de quadrinhos] Docência, literatura e nona arte com Gian Danton

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Por Francisco Costa

O professor universitário e roteirista Ivan Carlo Andrade, ou melhor, Gian Danton iniciou sua carreira nos quadrinhos com seu amigo Bené Nascimento, o Joe Bennett. Sua primeira publicação foi a HQ de terror Floresta Negra, pela revista Calafrio, em 1989.

“Eu havia conhecido o desenhista Bené Nascimento, que me convidou para fazer um fanzine de quadrinhos. Um dia ele chegou com uma história pronta, toda desenhada e perguntou se eu aceitava colocar o texto. Foi meu primeiro quadrinho escrito e primeiro publicado”, revelou Danton. Além disso e de outros trabalhos diversos, Gian escreveu A Insolita Família Titãs e a graphic novel em duas partes Manticore (também com arte de Bené). Esta última apresenta o mito do Chupa-Cabra em um conto de terror e foi amplamente premiada.

Manticore, feito em parceria com Joe Bennet, é um dos trabalhos mais expressivos de Gian Danton
Manticore, feito em parceria com Joe Bennet, é um dos trabalhos mais expressivos de Gian Danton

Artista experiente, atualmente Gian trabalha em seu livro, também de terror, O Uivo da Górgona. O material busca financiamento coletivo no Catarse e, conforme o roteirista, apresenta um tipo diferente de zumbi. Ficou curioso? Confira o que mais o artista e professor nos revelou durante o bate-papo.

Entrevista

Caneta e Café – O que é preciso para fazer um bom quadrinho?

Gian Danton – Muita coisa. Um quadrinho realmente bom é o resultado de uma série características, desde um bom entrosamento entre desenhista e roteirista, até aspectos mais específicos. Do ponto de vista do roteiro, uma das regras básicas é: nunca dizer com o texto aquilo que pode ser mostrado com o desenho.

Caneta e Café – No meio acadêmico, os quadrinhos são uma fonte marginal – há poucas produções, relativamente, utilizando-os como fonte e inspiração. Como professor você trabalha esse tema?

Gian Danton – Olha, essa realidade mudou muito. Quando comecei a pesquisar quadrinhos, você contava nos dedos das mãos as pessoas que se interessavam por isso no meio acadêmico e sobrava mão (risos). Hoje em dia existem pelo menos dois eventos acadêmicos dedicados aos quadrinhos: o Jornadas, que acontece na USP, e o ASPAS, que geralmente ocorre em Leopoldina (MG). E tenho visto que cada edição aumenta o número de pesquisadores em todos os níveis – graduação, especialização, mestrado, doutorado. E isso é ótimo. Eu sou professor de jornalismo e os quadrinhos entram na disciplina Teoria do Jornalismo, quando falamos da tendência do infoentretenimento. Exemplo disso é a Superinteressante usando linguagem de quadrinhos em reportagens.

O Uivo da Górgona é um livro com elementos de quadrinhos
O Uivo da Górgona é um livro com elementos de quadrinhos

Caneta e CaféOs quadrinhos são uma mídia fantástica e única, que trabalham o passado, presente e futuro simultaneamente (lendo o começo de uma página você vê perifericamente seu desfecho, por exemplo). Acredita que eles são bem trabalhados por aqui, no Brasil? O que acha do nosso cenário hoje e como era quando você começou?

Gian Danton – Mudou muito, principalmente em termos de mercado. Na minha época um editor normalmente comprava o roteiro e repassava para um desenhista e depois publicava. Hoje em dia, na maioria das vezes, temos a autopublicação e plataformas de financiamento coletivo, como o Catarse. Isso é bom por um lado, pois aumenta a variedade, e ruim por outro lado, pois as tiragens são pequenas. Do ponto de vista da linguagem, acho que hoje é tudo mais fácil. Na minha época, quando comecei a escrever quadrinhos, não havia nenhuma referência. Eu não tinha nem exemplos de roteiro, nada. Hoje em dia é tudo muito fácil, especialmente com a internet. Há, por exemplo, o meu blog sobre roteiro e meus livros. Atualmente é muito mais fácil conseguir material que ajude a escrever uma boa história.

Caneta e Café – O Uivo da Górgona é seu trabalho mais recente. Fale um pouco sobre ele.

Gian Danton – O nome surgiu de um livro de bolso que li quando era pré-adolescente chamado O olhar da górgona, em que um clarão transformava pessoas em mutantes. A história estava longe de ser um clássico da literatura (risos), mas eu sempre fui do tipo de ler um livro ruim e ficar imaginando como ele poderia ficar interessante, ou assistir um seriado e imaginar minha própria versão da história. A górgona era a medusa, uma criatura capaz de transformar as pessoas em estátuas de pedra, ou seja, em criaturas não-humanas. Isso combinava bem com o que eu queria, que era refletir como as pessoas podem perder seu lado humano quando estão em uma multidão. Na minha história é um som que transforma as pessoas, destruindo as células cerebrais do neo-córtex e fazendo com que elas sejam governadas pelo cérebro reptiliano, verdadeiros zumbis. Ah, isso tem a ver com algo que sempre me incomodou nos zumbis: se eles estão mortos, por que precisam comer? Na minha história a fome está associada ao fato da pessoa ser governada pelo nosso cérebro mais antigo, instintivo. Então é uma história de zumbis, mas com um foco diferente, inclusive de crítica social.

Caneta e Café – Ele é um livro, mas tem elementos de quadrinhos. Nos conte sobre isso!

Gian Danton – É livro, literatura, mas com muita linguagem de quadrinhos. Eu imaginei cada capítulo como uma tira de quadrinhos, ou como uma página dominical, em que o final sempre guarda um suspense que é desenvolvido no capítulo seguinte. Além disso, temos os belos desenhos do João Ovitzke, que vai vai fazer a capa e algumas ilustrações internas.

Caneta e Café – Este projeto está, inclusive, no Catarse. Achei o preço pedido incrivelmente enxuto. Como conseguiu isso e qual o diferencial do projeto?

Gian Danton – Pois é, eu enxuguei todos os custos possíveis. O João, por exemplo, aceitou ser pago em exemplares. Negociei com uma editora, que vai fazer a diagramação em troca de exemplares. Tudo para conseguir uma meta baixa. Acho que o diferencial é esse: de ser um livro com jeito de quadrinhos. Basta ver outros projetos na área de literatura no Catarse, a diferença fica bem óbvia da maioria dos projetos. E parece que tem dado certo. O Uivo da Górgona está bem melhor do que projetos mais antigos.

Caneta e Café – Aproveite e diga por que as pessoas devem apoiá-lo. Venda seu peixe.

Gian Danton – Olha, eu não vou nem pedir para a pessoa apoiar o projeto. Vou pedir apenas para baixarem o e-book promocional. Tenho visto relatos de muitas pessoas que conhecem a história e simplesmente viciam nela. Então, o que peço é isso: baixe o e-book. Se gostar apoie o projeto no Catarse.

Caneta e Café – Você é versátil, mas trabalha frequentemente com o terror, um gênero, eu diria, que faz parte da história do Brasil na nona arte. Fale um pouco dessa preferência.

Gian Danton – Eu comecei com terror porque era o gênero que vendia bem, que tinha saída na época, até por praticamente não ter concorrência do quadrinho estrangeiro. Mas acabei me afeiçoando. Gosto especialmente quando o terror é focado nos aspectos psicológicos dos personagens. Mas já fiz de tudo. Já escrevi até histórias de humor para a Mad.

Caneta e Café – Além de escrever, você costuma ler muitas histórias em quadrinhos? O que lê (de HQs, livros, etc)?

Gian Danton – Leio de tudo. Atualmente estou lendo muito sobre simulacros, hiper-realidade, fake na arte, para meu doutorado. Mas sou muito fã de escritores como Stephen King, Ray Bradbury, Isaac Assimov, Edgar Alan Poe, Umberto Eco. De quadrinhos, confesso que não tenho mais saco de acompanhar os mensais, então prefiro os encadernados. Recentemente descobri a obra do roteirista argentino Héctor Oesterheld e estou lendo várias coisas dele – inclusive é uma das influências dO Uivo da Górgona, especialmente na questão do suspense como elemento fantástico.

Caneta e Café – Gostaria de acrescentar algo?

Gian Danton – Não,só agradecer pela força.

Francisco Costa é jornalista, especialista em marketing e comunicação digital e fã de quadrinhos – jor.francisco.costa@gmail.com

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