[Coluna de quadrinhos] Roteirista fala das dificuldades e da importância da persistência na nona arte

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Por Francisco Costa

Conforme noticiamos semana passada, o roteirista de quadrinhos Pedro Hutsch organizou o Oitavo Concurso das Joaninhas, que vale uma publicação de uma tira na revista MAD. O quadrinista realiza essa brincadeira desde 2009, na qual cinco artistas são convidados a criarem tirinhas de joaninhas, personagens de uma série criada pelo idealizador.

Porém, não é só isso. Pedro é um dos quadrinistas independentes mais engajados dos últimos anos. Além de suas tirinhas (que ele também desenha), escreve uma HQ de heróis chamada Tangram, que já está chegando em sua quinta edição e mais outras produções relacionadas a sua criação de criaturinhas vermelhas e pretas.

Como não poderia ser diferente, procuramos o artista para um bate-papo. O resultado você confere a seguir.

Pedro trabalha com dois universos: o das Joaninhas e o de Tangram
Pedro trabalha com dois universos: o das Joaninhas e o de Tangram

Entrevista

Caneta e Café – Tem chances pra roteiristas de quadrinhos no Brasil?

Pedro Hutsch – Chance existe pra tudo. Mas tirando a máxima da possibilidade, é claro que existe chance. Se alguém falar que “tá tranquilo, tá favorável”, é mentira. Mas isso não significa impossibilidade, apenas dificuldades. Precisa se esforçar muito e aprender a trilhar um caminho nada explícito. Você pode ser o roteirista de uma dupla fixa, como acontece em muitos casos. Pode ser um roteirista que trabalha com diversos artistas, como acontece com tantos outros. Dá até para ser um “roteirista solo”, usando uma abordagem visual do tamanho da sua vontade de materializar a HQ – como eu faço com minhas joaninhas na internet. Qualquer um desses caminhos é, simultaneamente incerto e válido.

Caneta e Café – Você publica de forma independente e algumas vezes por financiamento coletivo. Como é luta de fazer quadrinhos no Brasil? Consegue viver disso, ou é mais como um complemento de renda?

Pedro Hutsch – Na prática, todos os meus quadrinhos até hoje são independentes – uns saíram diretamente do meu bolso e depois foram se pagar ao longo do tempo, e outros nasceram já generosamente financiados por apoiadores na plataforma do Catarse. A luta é sempre em condições desfavoráveis. Lembro que, antes de lançar meu primeiro livro, conversei com pessoas que tinham uma boa noção do mercado nacional de HQs; com cada pessoa que eu conversava, eu dava um passo para trás. No fim das contas, foi preciso tomar uma decisão “impensada” para seguir adiante com isso. Desde então não parei. O que acontece é que, apesar da luta ser brava, é deliciosa, e lidar com quadrinhos é algo bom demais. Hoje ainda não vivo de quadrinhos, principalmente por não dar muitas aulas ou fazer freelas, como a maioria dos profissionais da área faz, mas venho acompanhando o desempenho de minhas obras e já consigo projetar um ponto de virada num futuro não muito distante. No presente, sou CLT, rs.

Caneta e Café – Você é muito ativo. Trabalha com as Joaninhas, uma HQ de heróis chamada Tangram e neste momento, até um livro. Fale um pouco de seus trabalhos.

Pedro Hutsch – Nos quadrinhos, hoje trabalho com dois universos. O primeiro é o das Joaninhas, que nasceu no Joãos & Joanas, em 2008. A pegada é de humor com filosofia. Comecei produzindo tirinhas para a internet e, em 2012, realizei o sonho de lançar meu primeiro livro, uma coletânea de tiras. Como o primeiro foi independente isso me colocou dentro do universo dos independentes, e tive que fazer um baita esforço para me inserir nesse novo mundo (pois até então eu vivia apenas no mundo das webcomics). Uma conclusão lógica que tirei dessa caminhada foi que, após imprimir os mil primeiros exemplares, levaria algum tempo até vender todos, o que significaria que eu precisaria ir a muitos eventos ainda para trabalhar esse material. Como o meu custo de ir a um evento é fixo, pensei em otimizar minha vida, levando mais material, ou seja, diversificando meu portfólio de produtos – ficou clara para mim a estratégia que eu deveria adotar: produzir mais livros. Daí surgiu o segundo universo, o Tangram. Eu ressuscitei meus heróis de criança, criei uma trama mais elaborada, comecei uma parceria com o desenhista Áureo Henrique e comecei a trabalhar no projeto. Em 2013 nasceu o Tangram #1, o piloto da série (hoje estamos produzindo a quinta edição). Tento manter minha produção de quadrinhos focada nesses dois universos, pois isso mantém unidade nas coisas que faço. Hoje, tenho oito publicações, todas independentes. Fora isso tudo, este ano vou lançar um projeto de literatura (texto!) com o amigo Rodrigo Ortiz. Estamos há tempos procurando o projeto certo para começarmos e acho que encontramos o que queríamos. Será lançado via Catarse e estou bastante animado com a ideia.

Tangram é uma série de heróis feita em parceria com o desenhista Áureo
Tangram é uma série de heróis feita em parceria com o desenhista Áureo Henrique

Caneta e Café – Você escreve em estilos diferentes. Qual o segredo da versatilidade?

Pedro Hutsch – Eu não saberia dizer – e se fosse segredo, eu não poderia (risos). A verdade é que vou na toada da história. É ela quem acaba comandando o como devo escrever. Tenho sérias dúvidas quanto à minha versatilidade… Fico feliz que você pense assim. O que me ajuda é já ter lido muito. Nos quadrinhos, por exemplo, por eu trabalhar com dois universos diferentes, procuro seguir um tom diferente para cada um deles, e ainda assim fico com a sensação de que muitas vezes sou apenas eu escrevendo da mesma maneira sobre universos distintos. Se é que eu posso dar alguma dica nesta pergunta, é: siga a história. Entre na cabeça dos personagens e tente manifestá-los. Sempre que possível, perceba quando você autor não está encobrindo o modo que um personagem faria algo. Você não é o personagem; você não é a história. Por isso, não coloque no que você está escrevendo os filtros que você usa para a sua vida, e sim os filtros necessários para aquele universo existir tal qual ele é.

Caneta e Café – O que mais gosta de produzir, pode nos dizer?

Pedro Hutsch – Não sei. Mesmo. Bom, eu não sei definir por gênero, mas sei definir por gênese. Não gosto de produzir algo “imposto” de fora para dentro, a não ser que seja um desafio topado por mim. Tenho muitas ideias presas dentro da minha cabeça e adoro colocá-las para fora, libertá-las. Faço isso na forma de palavras. São essas coisas que mais gosto de produzir, as ideias que não aguento mais guardar dentro da cabeça.

Caneta e Café – Vamos lá. Desde 2009 você realiza um concurso de seu mais antigo projeto, Joãos e Joanas (as joaninhas). Fale como surgiu essa ideia.

O concurso das Joaninhas levará uma tirinha para a revista MAD
O concurso das Joaninhas levará uma tirinha para a revista MAD

Pedro Hutsch – O Concurso das Joaninhas surgiu praticamente junto com as minhas joaninhas. Veja bem, eu não desenho; quando comecei a criar minhas tiras, achei que alguém iria cuidar da parte visual delas. Mas olhei ao redor e não vi ninguém; resolvi eu mesmo fazer as tiras, da maneira que pude. Uma das ideias que eu tinha era não trabalhar com apenas um desenhista no site, mas sim muitos. Inúmeros. Na verdade, eu imaginava que poderia ser apenas um espaço para tirinhas de joaninhas, que várias pessoas poderiam postar lá suas tiras. Eu não sei porque eu imaginava que mais gente iria querer postar com alguma frequência tirinhas de joaninhas por lá… Passaram-se alguns meses, eu me toquei de tudo isso, que engajar as pessoas a esse ponto era difícil, que se eu quisesse tirinhas de joaninhas teria que fazê-las eu mesmo e que o mundo era assim. Mas me bateu uma outra ideia: na forma de um concurso, algo pontual, eu poderia criar engajamento em torno de outras pessoas fazendo tirinhas de joaninha por algum período. Surgiu a primeira edição do concurso. Chamei pessoas mais próximas que eu sabia que tinham afinidade com a linguagem. Ao longo do tempo, fui conhecendo mais gente da área e agregando ao concurso. Hoje, tenho orgulho em ver quantos artistas talentosos já criaram sua própria tirinha de joaninha. Consegui materializar o que imaginava como constância agrupando pequenos espaços de tempo em torno da ideia original – poético, não?

Caneta e Café – A edição deste ano do concurso levará um artista para a revista MAD. Como conseguiu isso?

Pedro Hutsch – Foram necessárias duas coisas para conseguir isso: a primeira é o contato com a Revista, que consegui pelo Raphael Fernandes, editor dela, que conheci indo aos eventos de quadrinhos. A segunda coisa necessária foi a cara-de-pau. Não custa nada perguntar. Expliquei a ideia do Concurso para o Raphael, ele gostou e topou. Se eu não tivesse perguntado, não teria conseguido. As edições mais antigas do Concurso contaram com publicação no Jornal BLEH e na Revista Offline. Para ambos foi necessária a mesma cara-de-pau. Hoje, o Concurso está abrigado no melhor lugar para quadrinhos independentes que existe nas bancas: a tradicional Revista MAD.

Francisco Costa é jornalista, especialista em marketing e comunicação digital e fã de quadrinhos – jor.francisco.costa@gmail.com

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