[Coluna de quadrinhos] Henrique Kipper, que mais uma vez concorre ao HQMix, fala sobre carreira

Por Francisco Costa

Dizer que Henrique Kipper possui décadas de experiência como quadrinista parece ser pouco para definir o profissional várias vezes indicado, e até ganhador, do Troféu HQMix, nosso mais importante prêmio da nona arte. Com vasta experiência, o ilustrador está mais uma vez entre os finalistas do prêmio, desta vez com o trabalho A Salamanca do Jarau.

Autor, também, do livro A Happy House in a Black Planet, da HQ Mondo Muerto, e de muitas outras, além de dono de um traço inconfundível, Kipper topou conversar com a equipe do Caneta e Café. O resultado deste bate-papo você confere a seguir.

Kipper já tem 30 anos de atuação na área
Kipper já tem 30 anos de atuação na área

Entrevista

Caneta e Café – Você atuou na Folha de São Paulo e outros veículos de comunicação. Qual a diferença entre atuar em um jornal e fazer quadrinhos?

Henrique Kipper – Comecei como chargista político, caricaturista e ilustrador no final de 1987; na Gazeta do Sul do RS, e depois trabalhei no Diário Catarinense (SC), 1989; Folha da Tarde (SP), em 1990 e 1993; e na Folha de S. Paulo, de 1994 a 2004; além de diversos outros jornais alternativos e revistas mensais. O trabalho com quadrinhos é paralelo, tanto que minha formação de desenhista de quadrinho realista é anterior a de cartunista. Publiquei minha primeira HQ ainda 1989, no Rio Grande do Sul, na revista de variedades Alto Falante, em um estilo que tentava emular o John Byrne. Na sequência comecei a publicar tiras diárias de humor.
A diferença? Todas as modalidade, até charge, até a tira de quadrinho são rápidas. No jornal ou revistas você faz o trabalho em um dia e no dia seguinte dezenas de milhares de pessoas estão vendo.

Caneta e Café – E quando percebeu que queria ser um quadrinista?

Henrique Kipper – Aos 8 anos comecei a escrever histórias e montá-las como pequenos livros ilustrados. Logo depois já comecei a fazer o mesmo com quadrinhos. Mas quadrinhos é, desde esta idade precoce, para mim, um dos meios de emitir opiniões contando histórias, como a charge, a tira, o cartum, a ilustração autoral, o conto, o poema, a canção, etc.

Caneta e Café – Seu traço tem identidade, é fácil de reconhecer. Como chegou a ele?

Henrique Kipper – Sério? Oba! (risos) Obrigado, realmente às vezes acho que o meu traço está muito comum ou divergente. Sinceramente, como tenho formações muito díspares, creio que só agora, chegando nos 30 anos de profissão, estou alcançando uma unidade orgânica. Mas creio que tenho, ainda, bastante trabalho a fazer.
Como cheguei a ele? Bem, tive uma base inicial de desenho acadêmico, como quase todo desenhista, e depois trabalhei para me soltar. Aí entra muita pesquisa de artes de outras culturas (especialmente africana e asiática) e de pintura europeia do século XX. Creio que são os elementos mais fortes, que encontro em ilustradores que gosto. No quadrinho, busco trazer uma influência da ilustração e artes plásticas sempre que possível.

Caneta e Café – Acho que nem preciso perguntar se esse ramo é difícil, mas é possível viver quadrinhos no Brasil?

Henrique Kipper – Não conheço muita gente que viva de quadrinho feito para o Brasil (fazendo quadrinho para o exterior ou no exterior, aí tem um monte). Como ilustrador houve encolhimento brutal (e conceitual) da imprensa nacional (e do editorial também) nos últimos 15 anos. Tenho falado com muita gente e é incrível como bons profissionais com muitos anos de experiência e trabalhos sólidos vêm vivendo dificuldades. Um grande desperdício. O mercado de banca encolheu até o quase desaparecimento e a saída pelo mercado de livrarias não tem volume suficiente. No Brasil, a solução ainda está para ser descoberta.

A Salamanca do Jarau concorre no Troféu HQ Mix em duas categorias: Publicação Independente de Autor e Adaptação para os Quadrinhos
A Salamanca do Jarau concorre no Troféu HQ Mix em duas categorias: Publicação Independente de Autor e Adaptação para os Quadrinhos

Caneta e Café – Seu trabalho mais recente é A Salamanca Ddo Jarau, que inclusive está na lista final do HQMix. O que pode nos dizer dessa obra, além de ser uma adaptação de um conto de João Simões Lopes? E como é concorrer a este prêmio mais uma vez?

Henrique Kipper – Já concorri outras vezes ao HQMix e tive a felicidade de receber o troféu algumas vezes, se não me falha a memória, como em 1991 (Desenhista Revelação), 1996 (Ilustrador), em 2001 (pela e-lista Imago Days) e, na sequência, vários em grupo pela publicação Front, entre 2002 e 2004, principalmente como revista mix, projeto gráfico e projeto editorial. Aliás, o FRONT está de volta este ano contando a história do projeto, com lançamentos previstos para agosto. Confira AQUI.

Sobre A Salamanca do Jarau: Desenhei a Teiniaguá pela primeira vez em 1982, quando aos 12 anos morava em Quaraí, cidade que abriga o Cerro do Jarau. Simões Lopes Neto é um autor importante que influenciou muita gente do regionalismo brasileiro. Mas sua linguagem é única e Salamanca é uma história universal que fala muito sobre o mundo de hoje. Blau é um herói ético em busca de uma vitória interior, mais do que um herói muscular e de ação.

A Teiniaguá é uma princesa moura encantada que, nas profundezas do Cerro do Jarau, oferece um prêmio de poder mágico àqueles que superarem sete provas em seu labirinto subterrâneo. Mas para superá-los não basta “ser forte, aguerrido e bravo”, pois alguns desses desafios são testes de virtude e de moral. Mas a Teiniguá não é só princesa e moura: é feiticeira e mulher.

Caneta e Café – Sei que você também fez Mondo Muerto. Fale deste e de outros trabalhos na nona arte.

Mondo Muerto surgiu como uma tira de humor voltado para o público gótico
Mondo Muerto surgiu como uma tira de humor voltado para o público gótico

Henrique Kipper – Mondo Muerto surgiu exatamente em um período em que eu estava afastado do mercado de quadrinhos e ilustração e resolvi fazer algo só para “desopilar o fígado” (risos). Se relaciona com outros lados das minhas atividades, que é de organizador de eventos alternativos. Mondo Muerto começou como uma tira de “humor interno” para o segmento gótico (no Brasil não havia antes do MM, humor do ponto de vista gótico. Só piadas contra góticos, o que me incomodava bastante). Nessa área desenvolvo uma pesquisa, como a que resultou no meu livro teórico A Happy House in a Black Planet (2008) e mais de 150 eventos noturnos nos últimos anos, além claro, do meu trabalho como DJ. Happy House pode ser baixado e o começo de Mondo Muerto pode ser visto no nosso site voltado para a subcultura gótica, Gothic Station.

Caneta e Café – Pode ser cedo para perguntar, mas já está com algum outro projeto engatilhado? Pode nos adiantar?

Henrique Kipper – Sim! Fora uma lista de uma dúzia de projetos grudada na parede para ser realizada nos próximos anos (façam fila!) tem alguns em via de sair: uma participação na série Pátria Armada, de Klebs Jr, O Mondo Muerto 2, e uma HQ baseada no universo de uma banda de Rock muito bacana. E claro, A Escola de Deusinhos, que cedo ou tarde deve sair.

Francisco Costa é jornalista, especialista em marketing e comunicação digital e fã de quadrinhos – jor.francisco.costa@gmail.com

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