[Coluna de quadrinhos] Balada Sideral é sci fi / road trip sobre amizade, preconceitos e muito da nossa realidade

Lançada em 2014, a obra levou dois anos para ser concluída

Por Francisco Costa

Balada Sideral, do quadrinista Rafael Senra, é daquelas HQs que você começa a ler e não consegue parar, mesmo com suas mais de 80 páginas. A história, um sci-fi / road trip é mais próximo de nossa realidade do que podemos imaginar (inicialmente).

Na trama, um jornalista, Markum Hallen, precisa sair de sua zona de conforto e viajar para outra galáxia para entrevistar os excêntricos (para ele) irmãos Molten, que fazem turnês por diversos planetas com sua música folk. Sem entrar muito nos detalhes, pois eu recomendo que vocês leiam, o título faz uma crítica ao capitalismo selvagem e consumismo desenfreado em que vivemos, além da robotização que ele gera. Porém, não deixa de ser uma história sobre a amizade e a quebra de preconceitos.

Mas deixemos o autor falar mais sobre esta obra. Confira nosso bate-papo com Rafael Senra a seguir.

Entrevista

Caneta e Café – Fale um pouco sobre a Balada Sideral.

Rafael Senra – A ideia por trás de Balada Sideral é contar uma história de viagem, estilo explorado em diversas mídias, como na literatura (On the Road, Odisséia), no cinema (Diários de Motocicleta, nos filmes do Wim Wenders e seu road movie studios) e, vez ou outra nos quadrinhos (como em Guadalupe, de Angélica Freitas e Odyr). No meu caso, resolvi ambientar no espaço sideral, em um futuro idealizado (porém longe de ser resplandecente, como no caso dos Jetsons).

Na história, o personagem Markum é um jornalista de música que mora na Multigaláxia, um espaço bem sofisticado dentro das delimitações onde os humanos vivem – algo parecido com nossos grandes centros urbanos. Os eventos se iniciam quando ele se vê obrigado, por necessidades profissionais, a viajar para a região não muito nobre da Rustigaláxia. Afinal, ele precisa entrevistar e escrever uma matéria com os irmãos Opala e Arcus Molten, que viajam pelos planetas tocando músicas de acento folk.

Aos poucos, o passeio pela turnê dos irmãos irá obrigar Markum a confrontar diversos preconceitos e travas pessoais. Ainda que nada disso o preparasse para alguns acontecimentos ocorridos no fim da turnê, quando ele visita “A Pira”, um espaço místico e obscuro que é tido como amaldiçoado por toda a Multigaláxia. Será que é bem assim?

Enfim, foi uma história que produzi ao longo de dois anos, e que publiquei em 2014 pela Editora Bartlebee. Eu já tinha produzido quadrinhos independentes anos antes e foi bem satisfatória essa minha primeira experiência por uma editora.

Caneta e Café – O que te motivou e por que fazer esse sci-fi / road trip?

Rafael Senra – Há muitos anos fiz de brincadeira uma HQ que se passava no espaço. Eu a tenho aqui, ainda que não tenha sido pensada para publicar, está toda a lápis. Sempre achei divertido fazer essa reelaboração dos elementos modernos num futuro sideral, as possibilidades de ambientação são bem dinâmicas e divertidas.

Não foi algo que eu tomei de uma maneira sisuda, querendo elaborar um universo de ficção científica sofisticado, mas apenas um verniz leve de sci-fi, por onde se passa uma história de viagem cujos eventos giram em torno da necessidade de autoconhecimento. Além do que adoro histórias de viagem, adoro filmes e livros que se desenrolam fora da nossa casa, em ambientes exóticos, com pessoas e costumes diferentes dos nossos.

Caneta e Café – E fale das referências pops que inseriu no material.

Rafael Senra – Ao longo da história aproveitei para inserir diversas referências e influências minhas. Alguns elementos são muito sutis, como, por exemplo, a busca de uma dicção e um aspecto existencial que remete aos romances do escritor Hermann Hesse. Mas outros aspectos são mais visíveis, e eu busquei até mesmo escancará-los, como no trecho em que os personagens caminham pela caverna e que representei de maneira semelhante aos Beatles atravessando a Abbey Road.

Caneta e Café – Tem alguma mensagem que você queria passar ao leitor com essa história?

Rafael Senra – Nesse tipo de narrativa, situada longe de um local seguro como o lar, qualquer pessoa é quase que obrigada a se despir de seus modelos indenitários cristalizados, e abraçar novas máscaras. Caso contrário, irá perder o melhor da viagem. Essa seria uma parte do que eu chamaria de “mensagem” mais evidente na obra.

Mas há também “A Pira”, que seria uma variação da experiência do Daime, ou de outros mecanismos cujo intuito seja o de provocar um contato do indivíduo com seu lado mais profundo. Esse tipo de acontecimento intensifica as possibilidades de autoconhecimento já presentes na própria viagem – em todas as viagens. A diferença é que “A Pira” envolve uma mescla de arte e tecnologia avançada, não é bem um psicotrópico ou enteógeno.

Porque no fim das contas as portas do autoconhecimento estão em nós mesmos. Os iogues que passam anos meditando na mesma posição, na verdade estão viajando internamente. A substância DHT, presente nos chás enteógenos como o Daime, também podem ser encontradas em nosso corpo. Obras de arte podem ser caminhos para nos conhecermos. Enfim, por trás de uma história de viagem espacial, Balada Sideral é uma tentativa de investigar essas possibilidades.

Rafael Senra (Foto: Toninho Avila)

Caneta e Café – Você assina o roteiro e a arte. Qual a dificuldade de fazer tudo sozinho?

Rafael Senra – Eu tenho uma relação de amor e dor com a produção de uma HQ. Eu acredito no meio sequencial como um suporte tão adequado para boas histórias quanto a literatura, o teatro o cinema e outros suportes. Contudo, não consegui ainda uma estrutura que me permita dividir ou terceirizar a tarefa da produção e eu mesmo acabo fazendo tudo. Além do roteiro e arte, têm a arte final, diagramação e letreiramento, às vezes cores. Algumas dessas etapas são bem desgastantes.

E tenho uma relação dolorida com meu desenho, uma insatisfação enorme. Minhas exigências estéticas têm um descompasso grande com o que consigo representar visualmente. Se tivesse mais tempo para dedicar às HQs, talvez fosse menos penoso. Mas tenho uma carreira acadêmica, sou professor, e nas horas vagas, também trabalho com música. Se eu conseguisse a dádiva de viver exclusivamente como quadrinista, mesmo trabalhando sozinho, teria finalizado uma HQ como Balada Sideral na metade do tempo que realmente levei.

Enfim, ainda estou na fase de responder esse tipo de pergunta com choradeira e “mimimi”. Mas tudo é um processo. Daqui a uns anos espero não apenas melhorar como autor de quadrinhos, mas me tornar um humano menos ranzinza.

Caneta e Café – Tem outros trabalhos já feitos ou em andamento? Adiante para gente.

Rafael Senra – Desde Balada Sideral comecei várias histórias, mas não acabei nada. A única coisa que terminei nesse meio tempo foram roteiros para HQs que talvez faça um dia.

O que eu fiz de concreto mesmo talvez saia esse ano. Foi um romance, que ainda preciso arrematar, e um disco – esse sim, será lançado nos próximos meses por uma gravadora polonesa, Progshine Records. É um disco de versões em português que eu fiz para canções medievais de domínio público. Um trabalho enxuto, de voz e violão, que tenho elaborado ao longo de três anos e que agora está pronto para ser compartilhado.

Caneta e Café – O País está em um de seus melhores momentos para os quadrinhos. O que acha disso?

Rafael Senra – Os quadrinhos ainda circulam por nichos, são algo que ainda não assumiu – no Brasil, pelo menos – uma feição de mercado. Há quem diga que as HQs nunca estiveram tão populares por aqui, mas isso não é verdade. Nos tempos de editoras como Ebal, em meados de 1950 ou 1960, as revistas que eram canceladas por baixa vendagem apresentavam números de vendas imensamente superiores aos grandes sucessos da atualidade.

Mas esse pessimismo só se justifica pelo lado quantitativo. Antes de entrar no aspecto qualitativo – que, creio eu, é bem mais animador – é preciso considerar a concorrência na área da arte e do entretenimento, sobretudo em tempos de internet. Os quadrinhos não mais reinam sozinhos quando as pessoas procuram algo para fazer. E o acesso aos bens de consumo é mais ágil e estruturado. Hoje em dia, é cada vez mais fácil encontrar especificamente o que você quer, em vez de ficar à mercê do que está disponível por perto.

Dito isso, é importante assinalar que a situação das HQs atualmente é bem melhor. Artistas têm mais facilidade de produzir, os computadores oferecem a todos possibilidades de ter acabamento profissional, há boas gráficas em cada esquina, editoras pequenas mas de qualidade, e a autopublicação é igualmente acessível. Na hora de vender, a internet é uma mãe, sem contar o financiamento coletivo que banca e escoa a produção em uma tacada.

E é importante falar também do respeito maior que os quadrinhos têm angariado. Eu falei dos tempos da Ebal, mas naquela época, a despeito das grandes vendas, as pessoas acreditavam piamente na ideia de que HQ é coisa de criança. Hoje em dia, não apenas parte da sociedade, mas também intelectuais e professores universitários já sabem que os quadrinhos têm um valor e uma profundidade semelhante a qualquer outra arte. Temos eventos como as Jornadas Internacionais de Quadrinhos da USP, com publicações acadêmicas excelentes e uma estrutura de dar inveja a outros eventos de pesquisa. Temos livros de peso, de autores como Umberto Eco ou, mais recentemente, Thierry Groenstein. Documentários e programas de TV sobre o tema têm circulado cada vez mais. Não podemos negligenciar conquistas como essas.

Caneta e Café – Como adquirir a Balada Sideral?

Rafael Senra – Ela pode ser encontrada em sites como Livraria da Travessa, e com um desconto bacana no Amazon. Também costumo fazer vendas através do meu SITE ou para quem me procura no Facebook ou no email (rararafaels@yahoo.com.br). Na medida que meu tempo permite, tento atender de maneira satisfatória a esses pedidos mais diretos.

Caneta e Café – Algo mais a pontuar?

Rafael Senra – No mais é agradecer por esse espaço que o Caneta e Café abre para as produções independentes, algo que praticamente se converte em um espaço de resistência, visto que o ecossistema dos portais de entretenimento ou dos sites de quadrinhos é todo dominado por produções de grandes empresas (isso que chamamos pelo nome empolado de mainstream). Existe vida criativa fora da grande máquina, e tenho um enorme sentimento de gratidão por todos que tentam fazer pontes entre autores emergentes e o público de leitores. Parabéns pelo trabalho de vocês.

 

 

Francisco Costa é jornalista, especialista em marketing e comunicação digital e fã de quadrinhos – jor.francisco.costa@gmail.com

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