[Coluna de quadrinhos] Dupla fala sobre o projeto Roseta, que está na reta final do Catarse

O Catarse sempre traz projetos de quadrinhos que nos surpreendem. Um deles é Roseta, que apresenta uma trama que envolve uma misteriosa partida de cartas na qual é narrada a história do objeto que dá nome ao título, um pedaço de pedra lascada que foi esculpido para ser a boneca de pedra de uma menina paleolítica.

Escrita por Henrique Madeira e ilustrada por Henrique Hübner, o leitor encontrará na obra história, arte, ocultismo e mais. O projeto está em sua reta final, por isso conversamos com os autores. Confira o resultado do bate-papo.

Entrevista

Caneta e Café – Fale um pouco de Roseta e como surgiu a ideia de fazê-la.

Henrique Madeira – Não sei exatamente como surgiu, mas a ideia de Roseta ecoou na minha cabeça durante muito tempo, tendo como base a premissa de que o primeiro deus da humanidade, ou a primeira ideia de um deus, tenha sido germinada por um erro de interpretação, ou um acidente de percurso. Talvez através de algum artefato paleolítico (no caso, Roseta). E a trajetória desse objeto através do tempo e das civilizações tenha sido a disseminadora desses panteões, tal como uma reação em cadeia. A ideia me pareceu tão doida e, ao mesmo tempo, tão coerente, que não pude descartá-la.

Caneta e Café – O feminino é forte nesta história. Por que optaram pelo sagrado feminino?

Henrique Madeira – A ideia do sagrado feminino vem da história das civilizações antigas pré-cristãs, de conceitos como “deusa-mãe”, “deusa da fertilidade”, que se repete em civilizações distintas em várias partes do globo e que talvez nunca tenham se encontrado. A mulher tinha crédito exclusivo de “geradora da vida” e o homem não sabia que contribuía para isso, então parecia obvio para esses povos que as divindades eram seres femininos.

Falta pouco para HQ ser financiada via Catarse

Caneta e Café – Além disso, vocês prometem uma história por baixo da trama visível. O que o leitor pode esperar disto e da HQ como um todo?

Henrique Madeira – Quanto à “história por trás da história”, a explicação é bem simples: a trama de Roseta se desenrola em dois planos: o mundo físico e o extrafísico. A trama do mundo físico o leitor capta na primeira leitura, a segunda exige que o leitor seja quase um “iniciado”. Foi por isso que acrescentamos um apêndice que ajudará a desvendar os segredos de Roseta, quadro a quadro. Apesar de ser uma HQ de poucas páginas, a leitura não será rasa ou rápida, como se pode supor, e cada releitura proporcionará informações novas e detalhes que não foram vistos antes, o que pode ser muito enriquecedor.

Henrique Hübner – Acredito que você pode ler a HQ como um pequeno épico da história da humanidade inserido num contexto fantástico. Porém, você pode ir mais fundo e querer desvendar o conteúdo oculto, ou nem tanto, em cada página. A partida de cartas é a chave que permite acessar os significados por trás de cada um dos símbolos e a partir daí acredito que a experiência se torna uma jornada individual para cada leitor.

Caneta e Café – São muitas influências e referências no desenvolvimento deste material, tanto na arte quanto no roteiro. Como foram feitos estes estudos? Deu muito trabalho chegar ao produto final?

Henrique Madeira – Tanto eu quanto o Hübner nos consideramos “artistas experimentais”. E acho que esse é o caso de Roseta. A combinação de ficção histórica, ocultismo, simbologia e a jornada de Roseta da pré-história até os dias atuais exigiu muita pesquisa, muito tempo quebrando a cabeça para fazerem as coisas se encaixarem com verossimilhança, tanto na história principal, quanto na história oculta. As “duas histórias” estão sincronizadas tal como um objeto e seu reflexo no espelho. A combinação de todos esses elementos resultou em um trabalho vigoroso. Foi uma experiência fantástica trabalhar no Livro 1 de Roseta e esperamos que lê-la também proporcione um pouco dessa excitação de saborear uma obra de arte original e intrigante.

Henrique Hübner – Quando recebi o roteiro de Roseta tinha recém-descoberto o trabalho do Sergio Toppi, em Sharaz-De. Fiquei alucinado pelo estilo de narrativa, onde cada página é tratada como uma ilustração e quis experimentar algo nesse sentido. E todo simbolismo trazido no texto do Madeira serviu como uma luva para desenvolver essa ideia. Quanto a essa simbologia, uma vez que cada página da obra representa uma correspondência entre a Kabbalah Hermética e o Tarot – que por si só já são temas bastante complexo –, o processo criativo foi um mergulho em livros de história, mitologia, alquimia, hermetismo, passando por Joseph Campbell, Carl Jung e outros mais. Que foi trabalhoso foi, mas foi um aprendizado e tanto.

Caneta e Café – E sobre a parceria de vocês? Ela já existia, ou é o primeiro trabalho em conjunto? Vocês pretendem dar sequência a esta parceria?

Henrique Hübner – Já trabalhamos juntos com HQs antes, em uma adaptação da biografia do escritor Erico Verissimo, ainda inédita, e outros projetos coletivos. Mas o Madeira não é só parceiro de quadrinhos, fazemos parte de um grupo de baderneiros culturais que volta e meia apronta alguma coisa em nossa cidade. Coisas como oficinas, feiras, exposições, etc.

Caneta e Café – Apesar de muito cedo, podem nos falar sobre os próximos passos?

Henrique Madeira – Nesse momento estou trabalhando no Livro 2 de Roseta, que deverá sair em 2018 e cujo roteiro já se encontra nos arremates. Pretendemos lançar um livro por ano e quando encerrarmos a trama, compilaremos todos os tomos em um volume único e, se possível, encadernado.

Henrique Hübner – Como o Madeira falou, temos trocado algumas ideias sobre o assunto e esse pode ser apenas o começo de Roseta.

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Caneta e Café – Entre as recompensas estão outros trabalhos de vocês, o que significa que já estão no mercado. Fale destes materiais.

Henrique Madeira – Entre as recompensas, incluí dois de meus trabalhos em prosa. O primeiro chama-se Jah-Bul-On, uma ficção histórica que se passa no interior do Rio Grande do Sul, no final do Século XIX. Trata-se de uma série de assassinatos que conduzirá o leitor para uma conspiração que envolve a Maçonaria.

O segundo livro chama-se A Cinza Lívida. Narra a história de Jocasta, uma menina que nasceu em uma pequena colônia germânica e deseja descobrir o mundo, saborear aventuras, sentir o gosto da liberdade e viver grandes paixões. Porém, ela não tem consciência do preço que terá que pagar por viver na preconceituosa, puritana, violenta e patriarcal sociedade gaúcha do século XIX.

Henrique Hübner – Trabalhei muito tempo com animação 2D e ilustração. Mas fazer quadrinhos de forma mais séria já é uma coisa bem mais recente, de 2012 pra cá. Ainda assim a produção foi bem intensa nesse período. No início do ano saiu pela Editora 42 a publicação da antologia Condenados, indicada esse ano para o Troféu HQMix, onde ilustrei uma das histórias. No momento estou terminando de arte-finalizar outra HQ com roteiro do Marcos Nogueira – também autor de Condenados. Tenho algumas histórias ainda na gaveta e outras prestes a sair, como Através da Poeira, que está em campanha de financiamento no Catarse e faz parte das recompensas do romance O Réquiem do Pássaro da Morte, do escritor Andrio Santos.

Caneta e Café – Algo mais a acrescentar?

Henrique Hübner – Espero que vocês curtam ler Roseta tanto quanto eu curti ilustrar.

Francisco Costa é jornalista, especialista em marketing e comunicação digital e fã de quadrinhos – jor.francisco.costa@gmail.com

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