EDUCAÇÃO: Para ser estudante não tem idade

Brasil tem 3,6 milhões de alunos na Educação de Jovens e Adultos (EJA), um em cada cinco estudantes têm 40 ou mais anos de idade. O dado demonstra que grande parte desses estudantes mais velhos, na infância e juventude, não pode se dedicar aos estudos

Estudante José Cícero

O Brasil tem 3,6 milhões de pessoas frequentando a Educação de Jovens e Adultos (EJA), modalidade de ensino voltada a quem tem idade superior a 18 anos. Em 2016, segundo Censo Escolar, um em cada cinco alunos do EJA tinha 40 anos ou mais, o que demonstra que grande parte desses estudantes mais velhos, na infância e juventude, não pode se dedicar a escola e perceberam na prática a falta que o estudo faz ao longo da vida. Adultos que passam por essa situação, além de incentivar ainda mais os filhos a estudar, enfrentam o desafio de buscar sua própria formação, mesmo que tardiamente. Neste próximo 11 de agosto, Dia do Estudante, vale lembrar que a busca pelo conhecimento não tem idade.

E esse fator de estar fora da idade convencional para os estudos não foi problema para o pedreiro José Cícero Pinto de Oliveira, 49 anos. Em setembro deste ano ele se forma no Ensino Médio, depois de participar do programa Ensino Consciente, da Consciente Construtora e Incorporadora, que disponibiliza o EJA em parceria com o Serviço Social da Indústria (Sesi) a seus colaboradores. As aulas são realizadas no canteiro de obras onde José trabalha, o Nexus Shopping & Business. Mesmo após o cansativo dia de trabalho, ele diz que vai animado para as aulas.,

O operário conta que deixar a escola não foi uma escolha na vida dele. Maranhense da cidade de Imperatriz do Maranhão, José Cícero conta que o pai deixou a família, e ele como irmão mais velho teve que assumir o papel de “homem da casa” aos 13 anos de idade. Nesta época, ele cursava a 4ª série do Ensino Fundamental. “No Nordeste ou você trabalha ou ajuda pai e mãe a colocar comida dentro de casa: saco vazio não para em pé”, resume o pedreiro que hoje é pai de duas meninas. A mais velha, com 17 anos, também vai concluir o Ensino Médio neste ano. Já a caçula, de 10 anos, segue os passos do pai de estudante empenhado.

Escolaridade
“A construção civil é ainda um dos poucos setores da economia que ainda aceita profissionais sem escolaridade, mas com um maior grau de instrução as chances de crescimento são muitas dentro de uma obra”, explica o coordenador de Responsabilidade Social da Consciente Construtora, Felipe Inácio Alvarenga.

A escola instalada na obra do Nexus Shopping & Business, atende a uma turma de 16 alunos e idade média na faixa dos 35 anos. A professora de José Cícero, Leysa Dayane Barbosa Gonçalves, relata que muitos alunos se sentem frustrados por não conseguirem ajudar os filhos com as tarefas escolares, e isto também os motiva a retornarem à escola. Ela reconhece o empenho dos alunos para superar o aprendizado após um dia de trabalho. “Eles têm que vencer o cansaço, e este é um fator que influencia muito no aprendizado”, pontua.

A empresa investe na formação escolar dos colaboradores como forma de proporcionar a cidadania e a oportunidade de crescimento profissional dentro da obra. “Há funções no canteiro que dependem de escolaridade”, diz o Coordenador de Responsabilidade Social, Felipe Inácio Alvarenga.

Dificuldades na infância
Colega de Cícero, o pedreiro, Paulo Castro Silva dos Santos, 49 anos, retomou os estudos há seis anos. Ele havia cursado até o 4º ano do Ensino Fundamental. Paulo tinha mais nove irmãos, e conta que o pai não teve condições de proporcionar o estudo a todos os filhos. “Morando na roça, meu pai não teve condições de enviar todos os filhos para continuar os estudos na cidade, porque no campo era mais limitado”, lembra.

A continuidade dos estudos sempre foi um grande desejo na vida de Paulo, mas que só se tornou possível por meio do programa Ensino Consciente. “Eu moro em Senador Canedo, e se fosse para eu ir para casa e depois chegar à sala de aula às 19 horas e sair às 22 horas não teria jeito. A tecnologia tem evoluído bastante, e não é porque eu não pude estudar no passado, que não posso recuperar o tempo agora”, frisa.

Pai de quatro filhos, Paulo fez questão de dar a chance que não teve quando mais jovem. Segundo ele, os dois mais velhos concluíram o Ensino Médio, e a filha caçula termina esta etapa do aprendizado em dezembro deste ano. Apenas o terceiro filho de Paulo não avançou como os demais, ele cursou o 8º ano do Ensino Fundamental. “A minha esposa também terminou o Ensino Médio e fez faculdade de Pedagogia”, diz orgulhoso sobre a família estudiosa.

Mais oportunidades
O operário Evandro Nunes de Souza, 37 anos, é um dos 13 alunos que frequentam as salas de aulas montadas nos canteiros de obras da Dinâmica Engenharia, em Goiânia, que também oferece a modalidade de ensino para Educação de Jovens e Adultos EJA para seus colaboradores, por meio de uma parceria com o Serviço Social da Indústria (Sesi).

Mais do que uma questão de autoestima, Evandro sabe que uma maior instrução escolar é também sinônimo de mais e melhores oportunidades de trabalho. “Quem não se atualiza e busca crescimento intelectual fica para trás. Eu tenho 37 anos e precisava disso, tenho o sonho de fazer faculdade de engenharia elétrica, e estou correndo atrás para conquistar”, ressalta o eletricista. Evandro diz que voltar à sala de aula ajudou até mesmo na sua vida pessoal. “Hoje consigo ensinar o dever de casa da escola para meu filho de 11 anos, algo que antes não sabia fazer. Me sinto muito orgulhoso por isso”, conta.

A gestora de Recursos Humanos da Dinâmica Engenharia, Luciana Lima, também certifica essa maior qualidade do colaborador e maior crescimento profissional, quando o mesmo consegue melhorar seu nível de estudo. “A empresa também ganha muito com o projeto, pois assegura uma mão de obra muito mais qualificada e ciente de seu trabalho. Hoje com novos processos e tecnologias que chegam à construção civil isso é muito importante”, avalia a gestora.

Emoção
“Até então nunca tinha vivenciado uma formatura na minha vida já nessa idade, então foi um momento em que me emocionei muito, me senti muito orgulhoso e feliz”. O depoimento emocionado é do encarregado de instalações da Dinâmica Engenharia, Osvaldo Silva, 54 anos, que após a conclusão do 9º ano também já está frequentando as aulas do Ensino Médio. Para ele, voltar à sala de aula depois de 32 anos longe dos estudos foi um grande desafio, mas que foi alcançado com o forte apoio de sua família. “Minhas filhas e minha esposa sempre me incentivaram a estudar. Elas me ajudaram com as atividades e algumas dúvidas que surgiam em casa”, lembra.

O próprio Osvaldo admite que buscou, inicialmente, o projeto do EJA mais para se adaptar à novas tecnologias na obra, mas agora ele não quer parar e já se prepara para o ensino médio. “No começo eu queria era mais ter uma instrução melhor para aprender usar alguns equipamentos que já temos nas obras, como os tablets. A melhora do desempenho na leitura também foi muito conveniente tanto na minha vida profissional quanto na pessoal”, conta o encarregado.

 

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