Esquerda radical e análise de conjuntura: uma avaliação e uma aposta quanto às eleições

Por Ian Caetano*

Já faz certo tempo que abdiquei de despender quantias de tempo neste tipo de debate. Por razões de preguiça nalguns momentos, por outro para mitigar inimizades julgadas outrora desnecessárias. A conjuntura, contudo, cobra-nos certos sacrifícios e estou cá a pagar um deles. Provavelmente inútil, provavelmente irrelevante, mas, como diria Camus, o importante é imaginar que Sísifo rolava montanha acima a pedra com um sorriso nos lábios. Aqueles que de mim têm nota ou proximidade sabem que sempre me autoreferenciei no campo da esquerda radical. Ato contínuo, discutir voto útil (ou voto, qualquer que seja), poderia de imediato parecer ao de esquerda radical médio uma excentricidade ou mesmo uma vilandade, ato de traição moral dos princípios daqueles que se reivindicam inimigos do status quo. Tentarei argumentar por que não é este o caso e por que sustento uma defesa (de fato, no meu caso, inédita) de voto nestas eleições. Tem que ver com a diferença entre tática e estratégia e as diferentes formas com as quais estas duas coisas relacionam-se com a noção de programa. Aos perseverantes espero entregar uma resposta razoável, ainda que breve, adiante.

Paira por sobre a esquerda uma dificuldade enorme. As fragmentações são exponenciais, a dificuldade de diálogo quase equivalente à da cena de destruição, por parte de deus, da torre de babel e nossa força frente às sucessivas e acumuladas perdas sociais (do ponto de vista político-econômico) débil e sem grandes perspectivas de mais feliz ocaso.

Assumamos a sério a tese do golpe (coisa que o PT não tem feito, visto ter ontem mobilizado diversos setores da esquerda em favor desta disputa para hoje cear com os malfeitores e consortes que outrora denunciava). Um golpe de estado dado em 2016… um conjunto de atores interessados neste, e engendradores deste, golpe, visto que golpe não é como um bocejo dado ao raiar do dia (é caro, sob qualquer aspecto, dar um golpe), não é algo que se dá para dois anos depois deixar voltar ao poder o partido que se articulou derrubar. Antes de fechar este lado pragmático do raciocínio, permitam-me um de natureza lógica.

Votar em Haddad é defender, implicitamente, a ideia de que qualquer articulação radical da esquerda está fadada ao fracasso. Explico: com o PT no poder (supondo que as forças golpistas – empoderadas em parte pelos graves equívocos petistas – deixarão tal governo governar), partidos como PSOL tendem a adotar uma postura desmobilizada, também agem assim movimentos com grande potencial como MST e MTST, por exemplo (dirão que não, que ainda sob governo petista estiveram a disputar ganhos, mas fato é que suas cúpulas estiveram em sinergia umbilical com os governos petitas, o que mitigou sua radicalidade e neutralizou suas bases – que muitas vezes estavam dispostas a uma radicalização. No caso do MST a relação é mais autoevidente. No do MTST, por vezes as bases foram freadas pela cúpula em favor da manutenção de projetos como o “minha casa minha vida entidades”. Assumamos ou não como positivo o programa, o ponto é dizer que gerou uma pacificação vertical de contendas). Voltando ao aspecto pragmático do argumento, o PT já teve três mandatos e meio para institucionalizar e enraizar seu projeto de governo, o que não fez. Boa parte dos ganhos, que inclusive ampliaram substantivamente o horizonte de expectativas das pessoas, está agora a desmanchar-se perante estas mesmas. A meu juízo isso já diz muito sobre os limites do horizonte programático petista e, aplicado este mesmo horizonte (visto não vermos acenos de uma autocrítica ou reformulação), por um gestor que não demonstra exatamente os mais envernizados traquejos políticos (um filme que já vimos), numa conjuntura como a atual… bem… dizem que o pior cego é aquele que não quer ver.

Um governo de direita nas atuais circunstâncias seria uma catástrofe, no dado estado de retrocessos quanto a garantias, direitos e ganhos sociais. Para a nossa geração seria o arruinamento de qualquer perspectiva de futuro. A universidade terminará, ao final de quatro anos, em frangalhos, o grau de instabilidade das mínimas condições de trabalho estaria a tal ponto avançado e hegemônico que a taxa de desemprego e insalubridade levar-nos-ia a patamares do século XIX, nalguns setores (como o trabalho agropecuário de baixo valor agregado), até medievos. Cobro aos delirantes que recobrem o juízo. Há quem ache que “quanto pior melhor”, no sentido da possibilidade de uma indignação geral. A história prova precisamente o contrário. Foram em momentos de mínimas condições de reprodução da vida social que as lutas promoveram-se com maior pujança.

A meu juízo, se não entendemos que o voto é a última instância emancipatória, mas entendermos (diferentemente de alguns anarcoides irresponsáveis) que pode ser ferramenta de luta, então a melhor tática no presente momento é escolhermos aquele que pode sustentar o blefe democrático por mais tempo (de Colin Crouch, um intelectual moderado insuspeito de adepto a ideias comunistas; passando por Wolfgang Streeck e Ellen Wood, dois acadêmicos com flertes marxistas; até João Bernardo, um pensador tido por seus simpáticos como radical; todos concordam que a democracia já está no tempo de prorrogação com seu arranjo paralelo ao capitalismo).

Nesse sentido, com este dado estado de vetores e circunstâncias posto, a meu ver Ciro Gomes é o candidato adequado ao papel de presidente. Explico: é contrário às reformas do governo temer e propõe um mínimo desenho institucional que mira num retorno de garantias sociais que dá condições para que saiamos deste estado de anomia ora vivido (o que dá já um mínimo de respiro civilizacional).

Com este cenário posto, uma esquerda que, como disse um alemão chamado Karl e de sobrenome Marx, “calma e resolutamente aproveite suas liberdades republicanas para proceder metodicamente à construção de uma alternativa radical” a ser executada no momento certo (e adianto q não será cedo), tem muito maiores chances de lograr êxito.

Por quê? Porque Ciro, esta é minha aposta, goza de menor capacidade de desmobilização da esquerda menos radical, o que a torna mais plausível de ser disputada (por nós, digo). Para isso, reorganizar uma pauta enxuta e pouco conflitiva dentro da esquerda radical faz-se o único meio, visto que precisaremos de boa coordenação para conquistar os setores menos radicalizados. Com isso em mente, a reorganização e pacificação interna dentro da esquerda radical não é nem ordem do dia, é ordem do ontem. Uma vez ela conquistada, temos de disputar, pelos meios mais adequados a cada conjuntura (entrismo em partidos, movimentos e sindicatos; debate público, etc.) a conquista das fileiras mais amorfas da esquerda menos radical.

Ciro e o PDT têm uma postura bastante clara (e com lastro histórico que as sustente) contra o golpe. Posicionou-se o Ciro em frontal oposição nos momentos e espaços em que teve ocasião de fazê-lo. O PDT expulsou seus membros que, contra a direção, votaram a favor do impeachment. A vice de Ciro, Kátia Abreu, critiquemos o quanto quisermos – e eu só não o faço agora porque seria um sem fim de páginas – tem posturas também bastante coerentes no que tange à investida golpista, votou contra seu então partido (pmdb, ora mdb) à época e sustentou lealdade ao governo então vigente e demonstrar ter sensatez suficiente para não ser a farsante da tragédia. Soma-se a isso o fato conjuntural de ser o candidato com a menor rejeição, quando o antipetismo mostra-se bastante forte (e sabemos que a resiliência da rejeição é bem mais forte que a da intenção de votos).

Se olharmos ao redor, só perceberemos mais e mais pessoas desesperançadas, adoecidas psicologicamente e atomizadas socialmente. Laços cada vez mais reificados numa utilidade cuja relação é sempre orientada aos fins. Nunca foi do meu feitio o catastrofismo ou a desesperança, mas vivemos um tempo que não nos permite torturar a realidade até que ela diga aquilo que nos agrade. Não temos um tempo fácil à nossa frente. É momento de posicionarmo-nos taticamente. Doutro modo, seremos tragados todos por um futuro amargo.

No segundo turno, será redução de danos (daí vale qualquer um que não seja o candidato da barbárie franca e aberta; e não temos só um na jogada, diferentemente do que pensa certa míope parte da esquerda), mas se no primeiro podemos crer nalguma previsibilidade que permita reestruturação de um futuro do campo da esquerda, no sentido amplo, acho que será com Ciro. E se isso ocorrer, novamente repito, é hora da esquerda puxar todas suas alavancas e pôr em movimento todas suas engrenagens para uma rearticulação paulatina e diligente de suas fileiras e para a conquista das menos radicais passíveis de disputa.

Aos já supracitados irresponsáveis que pensam que nenhum voto importa e que “eleição é tudo farsa”, cabe propor a reflexão, em particular aos mais jovens, que tiveram sua experiência de adolescência média nas mãos do governo petista, a hipótese de um futuro na mão, por exemplo, de um Alckmin. Nem usarei o exemplo do Bolsonaro para não ser caricato. Com todos os limites intestinos a um governo conciliador (nalguns casos mesmo social-traidor, visto que tinha a faca e o queijo na mão e fez menos do que podia), não tomemos por real o irreal de achar que “é tudo a mesma coisa”. Como disse antes, não se trata de supor nas eleições o reduto último da emancipação, mas de observá-la taticamente. De Lukács (intelectual revolucionário húngaro), em seu seminal Legalidade e Ilegalidade, a Rosa Luxemburg (intelectual revolucionária polonesa), em seu Reforma ou Revolução, pensadores que nem de longe podem ser acusados de entreguistas ou “pelegos”, isto já era assunto enterrado. Não é ver neste ou naquele partido eleitoral o agente que nos dará os ganhos, mas o tempo necessário para organizarmos nós mesmos nossa estratégia rumo à vitória.

*Ian Caetano é formado em Ciências Sociais pela UFG, mestre em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos do Rio de Janeiro e doutorando pela mesma instituição.

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