Fake News e o ataque ao jornalismo como estratégia política

Por Marco Faleiro*

Termo já desgastado pelo uso memético em contextos dos mais diversos, as Fake News apresentam, dialeticamente, duas facetas. Embora pareçam mutuamente excludentes, elas se completam nessa “batalha pela conquista das mentes e corações de seus alvos”, como definiu o jornalista e pensador Clovis Rossi. De um lado, a produção de factoides. De outro, a deslegitimação do jornalismo.

A primeira definição da expressão não carece de tantas explicações. É a simples manipulação meticulosa de informações com o objetivo de atingir os mais primitivos instintos do receptor. Este, na ânsia de confirmar suas expectativas a respeito de um personagem ou de um grupo ou mesmo de municiar a detração dos seus desafetos, toma como fatos situações absurdas. Atendendo, por sua vez, à expectativa do emissor da notícia falsa: uma agenda política.

Porém, o segundo conceito é, talvez, mais perigoso ainda. Ele expõe a estratégia, não muito nova, de quem disputa pela hegemonia dos discursos. A premissa é simples: uma ferramenta efetiva no combate às Fake News é, sem dúvida, o trabalho jornalístico com técnica, apuração rigorosa e pluralismo. Portanto, no afã de tornar viável uma “terra arrasada” na qual os argumentos mais falaciosos, emocionais e falsos prosperem, deve-se destruir o jornalismo.

Quem analisou de forma precisa um dos exemplos mais recentes (e bem-sucedidos) dessa estratégia foi o comediante John Oliver. Segundo ele, o presidente estadunidense Donald Trump usa três táticas quando interage com o público e a imprensa: deslegitimar a mídia, mudar o foco e provocar o interlocutor.

Foi durante sua campanha presidencial que Trump popularizou o uso indiscriminado do termo Fake News, atacando a mídia dominante ao taxá-la de inerentemente liberal. Sempre que pressionado por um repórter com perguntas difíceis ou comprometedoras, o empresário presidente passa pelas três etapas. Primeiro, rotula o interlocutor de mentiroso e servo dos interesses dos seus inimigos. Depois, questiona se essa pergunta não deveria ser feita para um rival político (“E a Hillary? E a China?”). Por último, provoca, irrita e humilha quem está do outro lado do microfone.

Como um Mister M da canalhice, ele e seus asseclas aprenderam a desviar a atenção dos espectadores para aplicar-lhes um truque de mágica. Ao fim do espetáculo, ninguém mais se lembra do questionamento feito no início do embate. E, enquanto esses ilusionistas conduzem os olhos do público para outro canto da sala, tiram das cartolas as maiores perversidades imagináveis.

Mas Donald foi ainda mais longe. Reivindicando para si a autoria do termo Fake News, o que antes era tragédia, agora é farsa. No século passado, os nazistas já usavam a expressão para desacreditar qualquer coisa dita pela imprensa estrangeira que os contrariasse (“lügenpresse” ou imprensa mentirosa). Um século depois, a dita nova direita estadunidense desenterrou a palavra e apropriou-se dela.

Agora, como sempre acontece com as importações que demoram a chegar do norte ao Brasil (Hitler de esquerda, Terra plana, movimento antivacina etc), a “alt-right” daqui também tenta plantar essa retórica em solo tupiniquim. E, como em um passe de mágica, a Rede Globo torna-se comunista, assim como a Folha de S. Paulo e até a Revista Veja. É a novilíngua da picaretagem. Terão sucesso aqui? Substituirão o jornalismo profissional pela pós-verdade do Whatsapp? Outubro de 2018 responderá.

*Marco Faleiro é bacharel em Comunicação (UFG) e graduando em Direito (UFG)

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