Fascismo, neofascismo e o medo real

O fascismo é um evento de acontecimento histórico político, ideológico, filosófico, assim como o de Benito Mussolini, estabelecido na Itália, em 1922. Um regime que faz prevalecer os conceitos de Pátria e Nação, raça (conceito que hoje tornou-se forma corporal) sobre os valores individuais, representado por um governo ou gestão autocrática (liderança que se caracteriza pelo controle do indivíduo), centralizados na figura de um déspota – o conhecido ditador. Revela forte tendência ao controle autocrático de imposição, coerção. Isso é o que ilustra o professor universitário, filósofo e mestre em serviço social, Antônio Lopes.

Filósofo e mestre em serviço social, Antônio Lopes

Segundo ele, hoje, no Brasil, “há uma forte comoção comportamental, estruturada na (in) consciência cimentada nas ignorâncias societárias paridas no cocho de uma democracia que, além de perene, segue órfã da educação e da liberdade de expressão. As trevas da imposição de verdades imperam, em pleno ano de 2018 – que grande parte da Nação parece e insiste conhecer tão pouco – ao contrário daqueles que lutaram pelas liberdades democráticas, acuados nos porões da era de exceção, tempo sombrio da ditadura civil e militar”.

Ruy Vieira Veggi, que é bacharel em Filosofia pela UFRJ e licenciado pela UCB, explica que o Fascismo é uma forma de determinar poder, através de ideologias, ou combinações ideológicas que culminem em uma justificação de toda e qualquer violência. essa é a essência geral de fascismo dentro de uma totalidade de questões e uma conclusão óbvia. Para ele, a transposição desse movimento para atualidade no próprio ato de se fascinar com o poder de determinação da lei sob a violência.Legitimar a violência. “Transpor esse movimento para atualidade seria simplesmente legitimar esse ato.”

Ao mesmo tempo, ele se diz otimista em não acreditar em um possível retorno fascista, em decorrência das ideologias universais. “São os tratados e as leis criadas, a partir da diplomacia, da reflexão histórica, de tendências filosóficas, que estipulam tratados e limites que determinam as ações do ser humano.” Para Ruy, a sociedade deveria ser sempre fiel aos direitos humanos. “São questões muito mais essenciais de se aplicar em escolas. As propostas de esquerda pecaram em não tratar esse fato nas propagandas políticas. Enquanto isso, o candidato Bolsonaro jogou tudo abaixo, e propagandeou no formato mais autêntico de uma guerra no Irã. E nós, brasileiros, infelizmente vivemos demais de imagens… Poucas imagens.”

Neofascismo

O Caneta e Café também procurou o historiador e jornalista pela UFG, Carlos Eduardo Pinheiro, que contextualizou o movimento fascista. Ele explica que, depois do colapso do liberalismo do século XIX, o fascismo se projetou como “um movimento de alternativa civilizacional sob uma revolução nacional, como uma utopia para o futuro, substituindo as democracias decadentes pelas antigas nações do Velho Mundo. O movimento convergia o nacionalismo, o racismo, o antissemitismo, a oposição à democracia, o uso da violência para meios políticos e a mobilização das massas sob uma liderança carismática. Daí a força dos grandes ídolos nacionais. Mussolini prometia o ressurgimento do Império Romano, enquanto Hitler anunciava o III Império fundado sobre uma ‘fraternidade racial’. Em suma, o fascismo pregava uma revolução contrarrevolucionária cujo inimigo fundamental era o comunismo”.

Para ele, com raras exceções não vemos partidos ou movimentos fascistas nos moldes de 1930 na atualidade. “No entanto, vemos a emergência de direitas radicais por todos os continentes. Ao contrário do fascismo clássico, o neofascismo não se projeta para um futuro utópico ou mitos coletivos, mas se funda a partir do presente eterno do ‘fim das ideologias’. Esse novo movimento se coloca como uma rebelião das pessoas comuns contra o establishment, contra ‘a elite corrompida’. Os inimigos não são mais os comunistas (embora apareçam como referência, sobretudo no Brasil), mas o globalismo, a imigração ou o terrorismo islâmico. São, antes de tudo, movimentos conservadores e reacionários, cujos líderes fabricam e exploram o medo da ameaça externa. Por ameaça externa dizemos todos aqueles que não são ‘as pessoas de bem’ (os imigrantes, os viciados, as feministas, os homossexuais, as pessoas trans, os ativistas de direitos humanos, os excluídos sociais).”

Questionado sobre o discurso dos presidenciáveis, o historiador diz ver em um deles semelhança. Carlos Eduardo pontua que o “levante das pessoas comuns” que convergiu para a vertiginosa ascensão de Jair Bolsonaro é exemplo claro do fortalecimento da direita radical no Brasil. “Até então dispersa, esse tipo de manifestação encontrou eco em um candidato a presidente da República que se coloca como anti-establishment e politicamente incorreto, com um discurso autoritário e militarista, sob o slogan de que ‘vai mudar o Brasil’. Esse mesmo candidato, que nunca mostrou apreço à democracia ou às minorias e defendeu um torturador em plena Câmara, apresenta um projeto de poder que reforça e aprofunda o status quo de violência e desigualdade que viceja pelo País, avançando sobre as conquistas sociais das minorias.”

Reflexos

“Episódios de violência, como a morte do professor de capoeira na Bahia, mostram que o discurso de ódio, se não contido ou condenado, pode gerar consequências graves às pessoas e à democracia”

“O eleitor de Jair Bolsonaro está tomado pela necessidade de ‘mudança radical’. O antipetismo ‘escapou’ das mãos dos partidos de centro-direita e acabou virando um repositório de frustrações e anseios. Os eleitores de Bolsonaro veem nele a resposta ou a vingança contra o ‘velho sistema político’. Por sua falta de apreço à democracia, seu desrespeito às minorias, sua misoginia, seu militarismo e espontaneidade politicamente incorreta, Bolsonaro acabou agregando em torno de si os discursos autoritários e conservadores dispersos na sociedade brasileira e se tornando uma real ameaça à democracia e aos direitos humanos”, pontua Carlos Eduardo e dá sequência: “Episódios de violência, como a morte do professor de capoeira na Bahia, mostram que o discurso de ódio, se não contido ou condenado, pode gerar consequências graves às pessoas e à democracia.”

Questionado sobre a aplicabilidade do discurso, em caso de sucesso nas eleições, o historiador lembra que o presidenciável do PSL leva consigo a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados. “O PSL, um partido nanico, conseguiu eleger 52 deputados e há todo o chamado ‘Centrão’ para ser conquistado. Embora se venda como a mudança, o capitão da reserva vai ter lidar com o Congresso, que é mais fisiológico mais que ideológico. No entanto, a democracia é frágil e foi alvo de contestação por parte do candidato e de seu vice por diversas vezes.”

O outro lado

O Caneta e Café também perguntou para o historiador acerca do petista Fernando Haddad e se o discurso do partido também preocupa, uma vez que a legenda está envolta em corrupção. Para Carlos Eduardo Pinheiro, são problemas diferentes. “O Partido dos Trabalhadores foi formado na luta democrática e governou o País por 13 anos. Embora tenha alguns arroubos ideológicos, o PT nunca fez qualquer movimento para instalar um governo autoritário no Brasil. Os problemas do partido envolvem corrupção e fisiologismo, que precisam ser revistos caso queira manter e ampliar suas bases”, conclui.

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