“Ser mulher preta feminista, no mundo, é resistir”

Paula Pereira
Para a produtora cultural Paula Pereira, o empoderamento feminista ajudou a dar voz em sua própria luta contra o racismo (Foto: Arquivo Pessoal)

Na Conferência de Mulheres, sediada em Houston, em 1977, Margaret Prescod conta em Feministas: o que elas estavam pensando?, que teve o microfone cortado pelas próprias colegas de ativismo enquanto se pronunciava contra a esterilização forçada de mulheres negras. Para as brancas, a pauta era separatista e fugia aos propósitos da luta feminista.

Estima-se que cerca de 60 mil homens e mulheres foram esterilizados neste programa eugenista de “higienização social”. O propósito era evitar a procriação inter-racial de pessoas com deficiência mental e pobres que precisassem de assistência social, nos Estados Unidos. Iniciado em 1907, em Indiana, o programa só acabou em 1979, de acordo com reportagem da BBC sobre a luta das vítimas por indenização, publicada em 2011.

No auge dos Panteras Negras, movimento revolucionário que colocou os negros americanos no protagonismo de um ativismo político histórico, no fim da década de 1960, também emergia das entranhas do Movimento de 1968 (iniciado na Universidade de Paris e abraçado pela classe operária) o furor feminino em busca de direitos iguais que se espalhou por todo mundo. Sem representatividade dentro de ambos os movimentos, nasceu nos EUA o Comitê da Libertação da Mulher Negra.

Uma palavra tão forte como “feminismo” é capaz de arrancar os sentimentos mais paradoxais das pessoas que a ouvem. Ódio, paixão, nojo, admiração. Mas as barreiras intransponíveis de sentir a dor exata do outro, sofrer as mesmas tristezas do próximo, estão além da empatia. Por mais que no Brasil se fale em racismo velado, por não vermos um explícito apartheid ou bairros separados por cor e etnia, é explícita a violência e os pejorativos, e que se agrava nos fetiches por esterótipos relacionados ao corpo da mulher negra.

Por isso, dentre as várias vertentes do feminismo, é preciso legitimar o feminismo negro e, sobretudo, ter a humildade de reconhecer o lugar de fala, diferente do que foi feito na conferência em Houston.  Para Nathália Simão, de 28 anos, estudante de pedagogia e funcionária pública, a luta das feministas negras perpassa marcas profundas deixadas na sociedade em que vivemos hoje, porque a preocupação com a marginalização e a exclusão social acaba por se tornar mais importante que a luta por igualdade de gênero.

“Por este motivo, costumamos dizer que no Brasil a pobreza tem cor. Então, para além da causa social e política, nós temos uma população que vive à margem e muitas vezes o nosso discurso não comove essas pessoas em situação de exclusão. Muitas dessas mulheres negras estão preocupadas com a segurança dos seus filhos, com o desemprego, violência sexual e a fome, e veem o feminismo como uma coisa completamente distante da sua realidade. Então, porque se preocupar com igualdade salarial, por exemplo, se nem emprego temos, entende? A luta diária se diferencia porque precisamos entender que a realidade de grande parte da população negra brasileira está permeada pelo apagamento da identidade, questão econômica e uma complexa realidade social. O diálogo é outro. É lembrar que uma parte dessas pessoas vivem do mínimo e possuem centenas de preocupações, como não morrer de fome.”

Nathália diz que o feminismo na sua vida foi cultivado de uma forma quase que não intencional. “Na minha casa, por ser um lar de mulheres, mães e donas de casa totalmente dependentes dos seus maridos, sempre existiu uma regra estipulada pela minha mãe que era ‘estude muito e trabalhe para ter o seu dinheiro e não depender de homem nenhum’. Eu e minha irmã escutamos isso tantas vezes que acabamos internalizando essa ideia”, lembra. “Para consolidar, me aproximei do movimento punk e hardcore. Como eu sempre admirei trabalhos femininos, acabei buscando pelas mulheres que tinham bandas ou participavam do movimento também. Assim conheci o movimento Riot Grrrl, apaixonei e me identifiquei totalmente.”

Dificuldades

Segundo ela, ser negra e negro no Brasil é algo bastante complicado. “O racismo está nas pequenas coisas, nos pequenos gestos e muito institucionalizado. Então, a nossa luta é diária. Esteticamente falando, eu sou bastante aceitável. Minha pele não é tão escura, meu cabelo é crespo na medida aceitável, meu fenótipo é bastante miscigenado. Mesmo assim, vez ou outra é percebido alguns comportamentos de incômodo com a minha presença, justamente porque esse ‘estar’ incomoda. Mas é isso, a presença também é resistência.”

Krisley, historiadora de 27 anos, diz ter se descoberto feminista na universidade. Para ela, talvez exista uma balança julgadora na sociedade que quer tentar competir a relevância dos movimentos de gênero e raciais, mas que essa mentalidade está em mudança. “As perspectivas de junção entre a questão de gênero e racial vem sendo discutidas e disseminadas cada vez mais, ao menos no meio acadêmico. Nos resta levar isso para fora dos muros da Universidade”, diz. “Em determinados momentos, há um embate entre o feminismo e a questão racial. No entanto há que se compreender que existem feminismos. O meu é o negro. É o que me representa e representa minha gente. Posto isso, tento compreender as dimensões dos outros feminismos e até onde eles se encontram e se convergem com aquilo que acredito e pratico.”

A feminista Carol Hanisch escreveu, em 1969, o artigo O pessoal é político, em que narra sobre os encontros do que se tornou o Movimento pela Libertação das Mulheres (WLM). Acusado [o grupo] de ser  uma “terapia”, ela escreveu aos juízes da sociedade: “Eu fico realmente ofendida que se pense necessário que eu ou qualquer outra mulher precise de terapia, em primeiro lugar. Mulheres são confundidas, e não confusas.” No texto, assim como o próprio título sugere, ela fala sobre como nossos problemas pessoais, particulares de cada mulher em sua vida privada, tomam proporções no âmbito do público, do político.

Em consonância com o artigo de Carol, Krisley arremata: “Ser mulher, preta, pobre e feminista é um ato político. (…) Onde vou utilizo esse corpo político, seja na fila do açougue conversando com estranhas ou numa mesa de bar, falando com pessoas de meu círculo social. Em muitos momentos noto o incômodo de mulheres brancas, mesmo as feministas, quando colocado em pauta o quanto sou mais objetificada por ser preta. Paciência e diálogo nesse momento.”

Ativismo

A estudante de História, Karen, diz que o feminismo surgiu de uma inquietação pessoal. “Eu questionava muitas coisas. Por que mulher não pode isso ou aquilo? Na minha cabeça eu não aceitava como eram as coisas. Aí conheci pessoas que já estavam no movimento e me apresentaram ao feminismo. Eu gostei e foi um norte na minha vida”, disse.

Karen conta que desde o princípio da vida ativista foi iniciada ao feminismo negro. “Nunca me senti dividida, pois quem encontrei já me mostrou a junção das duas lutas, o que me deu um horizonte para reconhecer esse ativismo. As duas causas me expandiram o campo de visão e trabalho. No feminismo, vi que há várias linhas, como o feminismo negro, assim como há o feminismo gay”, compartilha.

“O mundo está mudando, ainda bem. Com alguns retrocessos, mas está. A luta é diária, porque você tem que se desconstruir todos os dias. Eu, enquanto mulher negra e feminista, tenho que me desconstruir. Algumas pessoas ao meu redor falam que é mimimi e que não existe isso. Aqueles discursos que a gente está acostumada a ouvir. Quem é contra o feminismo acha que as feministas são relaxadas, não higiênicas, depravadas”, conta Karen.

A produtora cultural Paula Pereira, de 24 anos diz ter se tornado feminista quando percebeu que várias mulheres, no passado, tiveram que lutar para conquistar direitos que ela usufrui hoje. Para ela, o feminismo é necessário para que ela se posicione na sociedade em busca da igualdade.

Ela explica que o ativismo de gênero e cor são vertentes que caminham juntos. “Fazemos parte do mesmo lado da moeda. Essa divisão acontece porque a além do racismo, a mulher preta tem que lutar pelo feminismo também. Se no mercado de trabalho, a mulher já ganha menos que o homem, a mulher negra, nessa história, pode nem ter a oportunidade de emprego.”

Para Paula é possível lutar pelas duas causas e separar as situações que cada uma traz como verdade. “Se eu posso, hoje, ter voz e lutar contra o racismo, é porque hoje sou mulher feminista e não me calo para a opressão”, afirma e complementa: “Ser mulher preta feminista no mundo é resistir. Tem uma frase que gosto bastante que é ‘somos sementes de Marielle’, sobre as mulheres negras que foram eleitas no estado do Rio. A luta da mulher preta acontece desde o momento que acorda pela manhã e sai para o trabalho ou aula, até o momento de voltar a dormir. Não é fácil se posicionar o tempo todo pra mostrar que é tão capaz quanto qualquer outro, mas eu não paro”.

“Muitas pessoas confundem o feminismo com o femismo. Feminismo busca por igualdade, o femismo busca a superioridade. Então, os esteriótipos se criam a partir dessa confusão, que também envolve muito o radicalismo. Quando se fala da mulher feminista pra uma família tradicional, a primeira imagem que vem é a mulher nua na rua ‘profanando a igreja’. Mas não, sabe. Se temos o direito ao voto hoje, é graças ao feminismo que nos coloca na mesma posição do homem, onde quer que seja”, finaliza a produtora cultural, Paula Pereira.

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