A angústia da pós-modernidade

gustavo motta ph: rodrigosantos
“Muita informação e tecnologia tem feito o ser humano esquecer como ser humano”, diz coach Gustavo Mota (Crédito: Rodrigo Santos)

A angústia da pós-modernidade, que parecia ser o fundo do poço da existência, pode abrir espaço para um novo movimento cultural ainda sem nome que nos afunda em profundezas lamacentas de cinismo e egoísmo ainda mais inextricável. Mas, até onde sabemos, já nos é suficientemente infausta a pós-modernidade, ou a modernidade líquida, como chamou Zygmunt Bauman, que nos lançou para um abismo interior oco, niilista e egocêntrico. Em entrevista à jornalista Adriana Prado, da IstoÉ, o pensador contemporâneo explicou: “Amor líquido é um amor ‘até segundo aviso’, o amor a partir do padrão dos bens de consumo: mantenha-os enquanto eles te trouxerem satisfação e os substitua por outros que prometem ainda mais satisfação.”

A liquidez dos tempos atua como um câncer que corrói não apenas as relações românticas, mas todas as nossas relações sociais, inclusive aquela com nós mesmos. Segundo Alain Bihr, em Da grande noite à alternativa – O movimento operário europeu em crise, um dos fetichismos capitalistas é o do “eu” (ou o individualismo). “Esse efeito desestruturante foi consideravelmente ampliado no curso do período fordista, no seio do que foi denominado ‘sociedade de consumo’. Pois quando não só os objetos mas também as relações interindividuais e as ideias entram na troca e tornam-se ‘objetos’ de consumo mercantil, então tudo é reduzido ao estado de objeto desprovido de sentido.”

Bihr mostra que a lógica da privatização, essa separação do “meu” do que é social, só pode desembocar no vazio e gerar uma crise generalizada da identidade individual e que, ainda que contraditório, cria o reverso inevitável da supervalorização narcisista. Essa busca desesperada em tentar encontrar sentido à própria existência e ao mundo, descarrilhada e ao custo que custar, conduz ao sentido perdido ou à feira dos sentidos (em que o ser humano se vê livre para dar o sentido que quiser). Não à toa, Bihr observa como nos tornamos consumidores vorazes de soníferos e tranquilizantes, viramos toxicomaníacos suicidas (tabagismo, álcool, drogas), somos depressivos, ansiosos, obsessivos compulsivos, dentre outras doenças psicossomáticas, além das hecatombes no trânsito.

No mesmo caminho, Richard Sennett, em A corrosão do caráter, expressa como o neoliberalismo nos tornou impacientes à medida em que a economia é dedicada ao curto prazo, influenciando como valorizamos e a durabilidade das relações pessoais e comprometendo a lealdade e compromissos mútuos. Ao descrever a vida de um amigo que não conseguia mais se relacionar com os filhos e lhes passar valores, ética e lealdade, Sennett compreendeu: “Ele temia que as medidas que precisava tomar e a maneira como tinha de viver para sobreviver na economia moderna houvessem posto sua vida emocional, interior, à deriva.”

Se abrir para o mundo

Nesse abismo pós-moderno de alta exposição do pessoal na internet, proporcionalmente à internalização das angústias, ansiedades e sofrimentos, Gustavo Mota, bacharel em Direito, viu no coaching uma maneira de aprender e ensinar outras pessoas a lidarem consigo mesmos e com os outros. “Os coaches surgem nos anos 1950 e 1960 como professores de Educação Física em busca de um bom atleta e um bom aluno. Ele tem esse caráter motivacional. Surge da orientação de maximizar o potencial. O coach não traz nada de novo para a pessoa. É como se todos nós fossemos um X-Man e não soubéssemos do nosso talento”, conta. “No coaching, todos conversam e escutam. É estudado como você conversa e como as pessoas te entendem e como as pessoas conversam e como você entende as pessoas”, explica um pouco do processo.

Para Gustavo, é essencial que todos tenham ajuda profissional, seja de um coach, um psicanalista ou terapeuta. “Por exemplo, vejo jovens, a partir de 12 anos, que tem tantas potencialidades, mas são cobrados de uma maneira que sugam sua essência. Se perdem e não sabem qual atitude tomar e escolhem a rebeldia. Eu tenho uma coach. O processo te ajuda, porque te dá várias ferramentas”, diz.

O dom de ouvir

“Rubem Alves diz: ‘Muito se fala em oratória e pouco se fala em escutatória.’ Nós não sabemos ouvir um ao outro. A pessoa, às vezes, chega e diz que o casamento dela está ruim. A outra responde: ‘O meu, então, já estou em processo de divórcio.’ A gente briga para disputar quem está pior. Ou mesmo a questão de saber receber um elogio. Tem quem receba um elogio do tipo: ‘Como você está bonita’, e a pessoa responde: ‘Não estou, são seus olhos.’ Não sabemos receber elogios, mas quando se trata de críticas, a gente aceita tão rápido e fortemente”, observa Gustavo.

“Fomos criados para receber críticas e não elogios. Faço um trabalho voluntário em uma igreja com jovens e vejo que eles têm um vazio existencial muito grande. Eles não sabem o por quê ou para quê viver. Quando se fala em gratidão, eles pensam: ‘Gratidão pelo quê?’ Essa palavra está tão na moda, mas sou grato pelo que? Dizem que quando falamos ‘obrigado’, é porque fazemos algo obrigado. Mas gratidão é algo muito profundo. Percebo que ouvir é mais forte que falar. Ouvir é o que falta para nós. Como ouvir o cliente? Em uma conversa com alguns amigos na OAB, ouvi que, às vezes, o cliente quer desabafar, mas o advogado já fala sobre processos a serem abertos. Talvez ele não queira abrir um processo, apenas desabafar. Cobre pela consulta jurídica”, comentou.

“Quando desabafamos, alguém sempre palpita. Nem sempre queremos palpites. Às vezes só queremos falar. O coach é sobre saber ouvir. Ouvir não é escutar. Ouvir é trabalhar com empatia. Às vezes, a pessoa só quer falar e o seu abraço. Só quer desabafar. A fotografia do mundo de outra pessoa é diferente do seu. Quando você comenta sem entender a realidade dela, você atrapalha e não consegue ajudar. Aprender a escutar é muito importante. Muita informação e tecnologia tem feito o ser humano esquecer como ser humano.”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s