O coach como porta-voz da ideologia neoliberal

Uma análise sobre a ideologia por detrás do “aprimoramento pessoal”

Por Diego Quixabeira e Souza*

O Brasil apresenta índices alarmantes de desigualdade social e de renda. Ademais, a educação deficitária é incapaz de gerar convergência entre pobres e ricos, isso entendido como o aumento da mobilidade social a fim de que o menino que nasce em uma família pobre e sem acesso a oportunidades consiga, por meio da educação de qualidade, modificar sua realidade e adentrar ao mercado como um profissional bem remunerado e requisitado. A luta pela educação de qualidade revela-se também como luta pela diminuição das distâncias entre ricos e pobres.

Ainda que graduado, um estudante de hoje saído da universidade se vê de mãos atadas frente às novas exigências do mercado. O mercado atual é excludente e cada vez mais autonomizado. A qualificação exigida é crescente e muitas vezes um aluno saído da faculdade se submete à informalidade ou a subempregos em razão do baixo índice de empregos oferecidos em sua área. A alta taxa de desemprego está diretamente relacionada à baixa qualificação das pessoas, bem como à alta ingerência das tecnologias em novas frentes, que tornam o trabalho humano cada vez mais dispensável.

Em contrapartida, as vagas existentes para os profissionais qualificados são baixas e disputadíssimas. Pode-se constatar que o crescimento econômico e a inserção das novas tecnologias nas frentes de trabalho, ao invés de gerar convergência e aumentar as oportunidades de emprego como diziam alguns economistas liberais do século XX, tem gerado exclusão de trabalhadores, tornando-os muitas vezes (in)empregáveis, isto é, pessoas que já não conseguem se qualificar e acompanhar os ritmos e processos do desenvolvimento econômico e tecnológico.

No Brasil o conhecimento sobre as implicações negativas da tecnologia no mercado de trabalho ainda é latente, isso porque as pessoas acreditam que tecnologias tais como transporte de passageiros por aplicativo, marketing digital e outras formas de trabalho 2.0 (digital e disruptivo), são boas oportunidades de emprego frente aos altos níveis de desempregos apresentados pelo IBGE que já chegam à ordem de 13 milhões de pessoas. As tecnologias disruptivas escondem, por trás de seu caráter pós-moderno e digital, altos níveis de precarização no trabalho e enrijecimento de camadas sociais, fortalecendo as estruturas de poder e exclusão presentes em nossa sociedade.

Diante desse cenário, um fenômeno sociológico tem surgido, é popularmente conhecido como “coach”. Ainda existe dificuldade na tradução do que seja coach, mas em síntese o Coach é “o profissional que atua no desenvolvimento das habilidades humanas, trabalhando com ferramentas e técnicas direcionadas de forma personalizada (one a one) com o fito de desenvolver autoconhecimento e neutralizar as limitações das pessoas para alcançar o sucesso profissional e/ou pessoal”.

A profissão do Coach não é regulamentada e, não é novidade para ninguém o fato de inúmeras pessoas aderirem ao movimento, surfando na onda do “melhoramento pessoal”, tanto como fornecedores desses serviços quanto como consumidores ávidos que estão para desenvolver suas habilidades humanas e enriquecer com isso. Vale ressaltar que esses “mentores” que se dispõe a “melhorar” a vida de alguém, não concluíram sequer os cursos formais na academia e nem mesmo fizeram qualquer preparação que os capacite a lançar mão desses instrumentais da neurociência, psicologia e programação neurolinguística.

Com efeito, o Coach é uma consequência do mundo moderno pela demanda do aprimoramento pessoal e individualização da vida, a pessoa vista como um embrião social, um empreendedor de si mesmo como diz a socióloga Leslie Denise Beloque (2007). A receita do bolo está em pegar vários conceitos construídos pela neurociência, psicologia comportamental, filosofia oriental, PNL, física quântica misturar com boas doses de motivação e, eureca, está pronto um programa personalizado de crescimento pessoal e profissional.

Atualmente é possível encontrar um Coach sob medida, para várias demandas da vida, muitos afirmam se tratar de uma tendência datada de pelo menos duas décadas chamada de autoajuda. O Coach seria nada mais do que uma auto-ajuda customizada, feita sob medida. Atualmente tem-se Coach para concurso público, criação para filhos, ascensão na carreira, quebra de paradigmas, enriquecimento, melhor rendimento nos esportes e estudos. Existe um repertório enorme de atuação desse profissional: Coach de Gestores, Coach Financeiro, Coach de Férias, Coach de Carreira, Coach de Planejamento, Coach de Empreendimento, Coach para Emagrecimento, Coach de Família, Coach de Vendas, Coach de Energia são apenas alguns deles.

O mercado de Coaching é responsável por movimentar uma parcela econômica altamente significativa. Nos Estados Unidos segundo o IBC são gerados mais de 2,3 bilhões de dólares ao ano. No Brasil, esse mercado vem ganhando cada vez mais força. Segundo o Instituto Brasileiro de Coaching (IBC), o Coaching “auxilia as empresas a produzirem mais através de uma gestão de talentos efetiva, bem como auxilia profissionais a alavancarem suas carreiras através da conquista de melhores cargos e salários”.

Mas de que empresas e de que profissionais está-se a falar? As empresas que adotaram a automação em substituição do trabalho humano ou dos profissionais que foram destituídos de seu direito constitucional e social ao trabalho em razão dos baixos índices de qualidade no ensino e da ingerência da tecnologia nas várias frentes de trabalho? É perceptível e compreensível que sem educação de qualidade, a massa de pessoas desqualificadas e com alto índice de analfabetismo funcional, execradas do trabalho formal encontrem alento nas teorias do “Coach”. Essas pessoas facilmente manipuláveis são terreno fértil para alienação e implantação de ideologias meritocráticas que depositam no indivíduo a responsabilidade total e exclusiva pela miséria que vivem. Vale dizer que o Coach é o porta voz dessa ideologia no mundo atual, o mantenedor das relações de poder entre ricos e pobres.

Obviamente que não se pode dizer que todo o profissional Coach, qualificado e sério, seja um oportunista. O que se diz aqui é que a inaptidão ao mercado em razão da ingerência desregulada das tecnologias em novas frentes somado ao alto índice de analfabetismo funcional e da educação de péssima qualidade, toma outro viés nas mãos de Coachs mal intencionados, o de gerar nas pessoas um sentimento de inaptidão para consigo mesmo, da imputação da culpa pessoal pelas desgraças sofridas, naquilo que o sociólogo Zygmunt Bauman chamou de “responsabilidade pessoal pela própria miséria”. As desigualdades sociais e de renda e o alto índice de desemprego passam a ser vistos não como opções de governo e de políticas públicas excludentes, mas como prova inexorável de que as pessoas “possuem mentalidade de pobre”, “não querem crescer”, “são preguiçosas e indolentes”.

A viralização das ideias essenciais do Coach descarta o fato de que as famílias ricas no Brasil perpetuam sua riqueza de geração em geração, não pela “alta eficiência e qualidade de alma dos ricos”, mas pela herança, pela ausência de tributos sobre a fortuna, pela quase inexistente distribuição de renda e por tantas isenções e privilégios governamentais distribuídos a banqueiros, empresários e rentistas, além dos lobbys formados para garantir que a política se perpetue como um balcão de negócios de gente rica.

O próprio Coach é um alienado da vida política e social e, como não consegue atuar eficazmente contra as relações de poder constituídas – pelo contrário, até gosta de fazer parte de tais relações – torna-se seu porta voz. O Coach atua como um religioso que possui um manual de técnicas eficazes que prometem aos seus clientes a possibilidade de darem um salto de qualidade em suas carreiras, ainda que estejam desempregados.

Quando realizado por profissional competente e capacitado, embasado por um estudo personalizado a fim de se descobrir tendências emocionais e comportamentais, melhorando sua eficiência na vida, o Coach é bem vindo. No entanto, do jeito que se encontra nada nesse jogo pode ser certo. Não há dados claros com precisão estatística de que o Coaching funcione e mude de fato a vida das pessoas para melhor. O que existe são especulações e teorias miraculosas de melhoramento pessoal e profissional, ainda que a realidade mostre o alto nível de desemprego e a baixa mobilidade social no país. Muitos são os aproveitadores e estelionatários presentes nesse meio. As palestras motivacionais estão longe de produzir efeito concreto e duradouro na vida de alguém. Somente um profissional qualificado é capaz de atuar positivamente no comportamento cognitivo de alguém a fim de provocar mudanças palatáveis na vida de uma pessoa.

Tais mudanças, porém, não tem o condão de transformar do dia para a noite uma pessoa pobre e à margem da sociedade em um milionário bem sucedido. A profissão de Coach precisa ser regulamentada urgentemente a fim de que um filtro seja realizado, proibindo que aproveitadores e manipuladores atuem nesse mercado, vendendo ilusões e engodo. É preciso que profissionais da psicologia reivindiquem seus direitos e se unam em defesa de seu nicho de mercado em respeito ao artigo 5º, XIII da Constituição Federal de 1988 que assevera que “é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer“.

Para ser Coach, deveria ser necessário a habilitação profissional em uma dessas áreas do conhecimento, pois o leigo que se propõe a ser Coach conhece apenas da superficialidade dessas áreas do saber. Deste modo, a especialização em Coach só poderia advir de alguém já graduado em psicologia, neurociências, neuropsicopedagogia e outras áreas afins.

É preciso também eliminar a tendência de se terceirizar a vida a pessoas despreparadas e manipuladoras. Vale aqui o lembrete de Friedrich Nietzsche:

“Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar, para atravessar o rio da vida – ninguém, exceto tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria a tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias.
Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar.
Onde leva? Não perguntes, segue-o!”

Enquanto hipotecarmos a vida nas mãos de terceiros, estaremos a delegar nossa humanidade em prol de coisas como “sucesso, dinheiro, sexo”. O Coach como instrumento de aprimoramento humano é aquele que ensina sobre suas limitações, mas também te mostra os obstáculos que terá que enfrentar. É aquele que não coloca a culpa por sua pobreza em você, mas que te ajuda a reconhecer o caminho já percorrido e a olhar para sua própria história de luta e conquistas.

Um país decente é aquele que tem uma educação de qualidade e um mercado com oportunidades capaz de dispensar profissionais medíocres de Coach que vendem culpa, ilusão e alienação, mais se parecendo com alguns religiosos estelionatários fanáticos. Não haveria necessidade de Coach’s se as pessoas tivessem acesso à educação de qualidade que é libertadora, geradora de autonomia e de empoderamento. Conhecimento gera poder. Não haveria necessidade de Coach’s se o mercado de trabalho não fosse tão excludente, ideologizado, segregado e se a sociedade não fosse tão desigual. Resta ressaltar que o Coach não é a solução para esses problemas políticos-conjunturais, mas muitas vezes é parte do problema.

*Diego Quixabeira e Souza é advogado e escritor

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