Artigo: O juízo final. Quem é o traidor?

Por Pedro Scalon


Quem é o homem perturbado que abusa da sua liberdade, até perceber que tudo está errado, fora de lugar? Sou eu. Somos nós. Sou eu, toda vez que, desiludido e amargurado, ao invés de meditar e provocar o surgimento das premissas erradas da minha desilusão, me formo uma falsa imagem de algum deus e de mim mesmo. “Por aqui, estamos todos cheios de deuses” cada um, para uma culpa.
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Por não me admitir, me apego a qualquer miragem que desmancha facilmente.
Então quem somos nós, quem são esses homens? Trata-se de pessoas muito infelizes, mal remuneradas em migalhas, desclassificadas e miseráveis ; gente que fica acordada à noite, ignorando o porquê, de estar a mercê de quem a comanda, de quem a faz andar de cá e de lá , gente desprovida de dignidade, cuja a família, se é que ainda existe, está cheia buracos e venenos. Gente que odeia o trabalho que exerce, acostumada a ser maltratada por quem detém o poder, e, portanto, necessita de veneno, vingança e ilusão.
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Constituem a natureza humana que existe em cada um de nós, que alterna o servilismo obsequioso com a covardia e desforra sobre quem apresenta inferior a nós. O prevalecimento da covardia tem muitas formas enganosas: existe por exemplo, o prevalecimento cultural (de quem sabe falar, expressar contra quem não sabe); o prevalecimento da educação (de quem tem maneiras finas contra quem não as tem); tudo isso serve para nos manter num estado de superioridade. Estes homens, nós, desabafam em cima dos deuses as próprias frustrações, a vida cinzenta, sem perspectivas e sempre em risco.
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Através da contemplação atenta das paixões, soltam-se os nós de questões existências e difíceis de serem decifradas humanamente, e se clareiam os julgamentos a respeito das situações ambíguas. Posto em reflexão com esses paradigmas, tudo o que é escoria começa a cair, e permanece, ao contrário, tudo o que em essência tem valor.
É talvez por falta de reflexão, de meditação, de contemplação da vida, que hoje assistimos a embriagues desacerbada do tempo, a confusão dos sentidos, a morte de deus, a desilusão da suposta sagrada família.
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Assim será a cena final: qual uso se fez da própria liberdade? O universo o acolheu? Você o acolheu? Ou foi como um desabafo da própria ganância desfavorável, como um desabafo da soberba desencantada de ser alguém?
É preciso racionalizar a vida, não somente em nível familiar, interpessoal, mais também em nível social e político.

Pedro Scalon (Crédito da foto – Fernanda Petrillo)

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