Artigo: Sou humano, e nada humano é estranho a mim

Por Pedro Scalon Netto

Ter consciência de si mesmo é um dom supremo, um tesouro tão precioso quanto a vida. É o que nos faz humanos. Porém, custa um alto preço: a ferida da mortalidade. Nossa existência é sempre obscurecida pelo conhecimento de que vamos crescer, nos desenvolver e, inevitavelmente, nos degradar e morrer.

Para alguns, o medo da morte se manifesta apenas indiretamente, como uma inquietação generalizada ou disfarçado de um sintoma psicológico secundário; outros indivíduos sofrem um fluxo explícito e consciente de angústia em relação à morte; e, em algumas pessoas, esse medo emerge na forma de um terror que anula qualquer felicidade e realização.

Por muito tempo, filósofos empenharam-se em embelezar a ferida da mortalidade e nos ajudar a ter vidas de paz e harmonia.

Epicuro, filósofo da Grécia Antiga em Atenas, praticava uma “filosofia médica”. Afirmava que, assim como o médico trata do corpo, o filósofo deve tratar da alma. Segundo ele, havia apenas um objetivo apropriado para a filosofia: aliviar o sofrimento humano. E a causa do sofrimento? Epicuro acreditava que ela residia no nosso medo onipresente da morte. A pavorosa visão da morte é inevitável, dizia ele, interfere no gozo da vida e não deixa prazer algum incólume.

Normalmente, o medo da morte se torna secreto aproximadamente entre os 6 anos e a puberdade, período que Freud designou como a época da sexualidade latente. Depois, durante a adolescência, a angústia explode com força; jovens frequentemente se preocupam com a morte; alguns chegam a considerar o suicídio. Muitos adolescentes hoje podem reagir a esse sentimento se tornando senhores e promotores da morte nas vidas virtuais dos jogos violentos de video game ou mesmo de redes sociais como o Facebook, o que já é uma coisa muito comum em nosso tempo.

Conforme os anos passam, preocupações adolescentes com a morte são postas de lado pelas duas principais tarefas do início da maioridade: a busca de uma carreira e a constituição de uma família.

À medida que atingimos o ápice da vida e olhamos o caminho a nossa frente, percebemos que ele não mais acende, mas se curva para baixo, na direção da decadência e da depreciação. A partir desse ponto, as preocupações com a morte nunca deixam de estarem presentes.

Não é fácil viver o tempo todo inteiramente atento à morte. Seria como se tentássemos olhar fixamente para o sol; existe um limite até o qual conseguiríamos suportar. Como não podemos viver paralisados de medo, criamos métodos para aplacar esse pavor. Nós nos projetamos no futuro por meio de nossos filhos; enriquecemos cada vez mais; ficamos famosos; desenvolvemos rituais compulsivos de proteção; ou adotamos uma crença inabalável em um salvador supremo.

Mas, apesar das mais impermeáveis e veneráveis defesas, nunca conseguimos dominar a angústia da morte; ela está sempre ali, à espreita, em algum desfiladeiro oculto da mente. Talvez, como diz Platão, não tenhamos como mentir para a parte mais profunda de nós mesmos.

Se eu, Pedro, tivesse sido um cidadão na Atenas arcaica de cerca de 300 a.C. (Período chamado freqüentemente como a idade de ouro da Filosofia) e passasse por uma situação de pânico em relação à morte ou tivesse um pesadelo, a quem eu teria recorrido para livrar a mente do medo? Seria provável que eu me arrastasse para a “ágora”, um distrito da cidade onde muitas escolas de filosofia importantes se localizavam. Eu teria passado pela Academia fundada por Platão, então dirigida por seu sobrinho, Speusipo, e também pelo Liceu, a escola de Aristóteles, outrora um aluno de Platão, mas muito divergente do ponto de vista filosófico para ser designado como seu sucessor. Teria passado pelas escolas dos estóicos e dos cínicos e teria ignorado todo filósofo à procura de alunos. Enfim, teria chegado ao Jardim de Epicuro, e lá eu imagino que teria encontrado socorro.

Hoje em dia, o que fazem as pessoas com uma angustia da morte incontrolável? Alguns buscam ajuda na família e de amigos; outras se voltam para a igreja ou para terapia; outras, ainda, podem consultar um artigo, texto como este.

Mas até onde podemos suprir esse socorro, esse medo? Em uma sociedade onde as pessoas não conseguem olhar para o céu sem parar de correr, sem distinguir as cores que podem bordar suas vidas, sem observar os males que estão fazendo ao universo, sem saber o porquê e de qual forma se encontrar, procurando receitas e medidas para amar.

Até quando podemos confiar em nossos terapeutas, professores bordados de teorias vencidas pelo seu próprio tempo, filósofos sufocados pelo seu próprio grito? Até quando e com qual confiança podemos confiar em entregar as nossas angústias, para quem, sobre quem?

Termino este texto tentando levar uma reflexão na premissa que estamos tão sufocados com a desonestidade da vaidade, que esquecemos de nos enxergar, ou mesmo de ter coragem para olharmos em nossos espelhos sem deixar essa mesma vaidade suja cobrir a nossa rajada de ser.

Não vamos concluir que a morte é dolorosa demais para ser suportada, que a ideia vai nos destruir, que a transitoriedade deve ser negada, pois a verdade tornaria a vida sem sentido. Essa negação sempre cobra um preço – o encolhimento da nossa vida interior, o embasamento da visão, o achatamento da racionalidade. Ao final, o autoengano toma conta de nós.

A angústia sempre acompanhará nossa confrontação com a morte. Sinto-a agora, ao escrever estas palavras; trata-se do preço que pagamos pela autoconsciência. Como diria Friedrich Nietzsche: “Nunca é alto o preço a pagar pelo privilégio de pertencer a si mesmo”.

Pois, à medida que eu me aproximo mais e mais do fim, viajo em um círculo mais e mais próximo do começo. Parece ser uma das formas de suavização e de preparo do caminho.

“Sou humano, e nada humano é estranho a mim.” (Terêncio)

 

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