ARTIGO: O MUNDO ENVERGONHADO

Por: psicóloga Marisete Malaguth Mendonça

Marisete Malaguth Mendonça, Psicóloga – Gestaltterapeuta

Eu, que ando diariamente absorvida por minhas inúmeras anotações, não consegui escrever nada sobre assunto algum há dias, porque estive sob o forte impacto de duas mortes paralisantes: a morte do homem negro americano, George Floyd, assassinado por asfixia mecânica pela brutalidade policial. E poucos dias antes, a morte de um menino brasileiro de 14 anos, o João Pedro, assassinado a tiros pela polícia, no Rio de Janeiro. Ver o pai daquela quase criança chorando, chorando a morte do filho de 14 anos, que não tinha nenhuma implicação com a polícia nem com a justiça, que estava estudando e construindo um projeto de vida, com certeza para melhorar a situação da família. Recordar aquele pai, em estado deplorável, impotente, na televisão, me surge um repentino ardor estranho na garganta! E presenciar George Floyd esmagado, pedindo para respirar, apenas para respirar, só para respirar, só isso lhe bastaria, e vê-lo morrer cruelmente asfixiado, não me deixa ter mais. Como digo? Nenhum sentimento de desgosto por nenhuma morte que tenha sido natural. Mesmo que essa morte represente uma grande perda para a nossa comunidade profissional, para a nossa arte ou para a nossa ciência.

O George Floyd e o garoto de 14 anos, o João Pedro, que foi assassinado nessa idade, são imagens que insistem na minha memória, não só quando passam na TV, fico me lembrando deles durante o dia, lidando com as coisas, mas assediada por aquela barbaridade! Mesmo que não se tratasse de um humano, mesmo que fosse um animal, seria dilaceradamente doloroso assistir. Mas um ser humano, morrer pedindo, falando a nossa língua, pedindo para respirar! O policial não teve compaixão. Não teve compaixão! Não adiantou nada sua voz humana pedir. O que me dilacera é perceber que ele ainda acreditou que era possível! Ele ainda acreditou! E não foi atendido! Que desgraça! Que desgraça! Como chorar outras mortes relevantes, mas naturais, que aconteceram? Porque a morte do Floyd e a morte do João Pedro é um testemunho da bestialidade, que eu me recuso a rotular como animalidade, nenhum animal é assim perverso, os animais são seres inocentes.

As mortes do George Floyd e do João Pedro são uma vergonha para nós, é uma coisa que nos envergonha, que nos humilha, que nos deixa pequenos diante de quê? Diante da ideia que temos de humanos, do conceito do que é ser humano, do imaginário do que é ser humano, diante da crença do que é ser humano, nos envergonha! Esse policial nos envergonha a toda a humanidade! Não é à toa que o mundo está protestando, ENVERGONHADO de produzirmos criaturas desse naipe na face da Terra! Eu acredito que é uma experiência universal, a VERGONHA que eu sinto por pertencer à mesma raça humana, mesma espécie humana, daqueles policiais brutalizados por algum ERRO DESGRAÇADO que cometemos nesse mundo, na nossa política, na nossa educação e principalmente na área militar ou policial. Como podemos produzir aquilo?

Um mundo que ao mesmo tempo produz homens e mulheres maiores, como tantos que nos elevam, que elevam o nosso orgulho de ser gente! Agora, O NOSSO CONCEITO DE HUMANIDADE SOFRE UMA RACHADURA com aqueles policiais e estes do Brasil, que mataram uma criança de14 anos, inocente! Não tem como! Eu não consegui escrever uma só palavra sobre o desgosto de qualquer outra perda da nossa comunidade! O George Floyd e o João Pedro estavam na frente do cadáver de qualquer outro que tenha partido de forma natural, o cadáver deles dois, sangrando na frente, não permitia visualizar nada além da vibrante cor púrpura se espalhando dos seus corpos e tingindo a face da Terra!  Eu só sentia o horror, o sofrimento, uma brutal comoção pela morte dessas duas criaturas! Em especial o martírio do George Floyd me deixou horrorizada, como deixou o mundo horrorizado.

Acho que eu e todo o mundo nos sentimos face à face  com um coletivo pesadelo: a evidência  de o humano poder ser monstruoso, inteiramente frio, impiedoso, cruel, de um jeito, com frequência, negligenciado por nosso pensamento e nossas teorias.  Como é possível um ser humano se desconhecer como humano? Não se reconhecer como tal? Porque necessariamente, no Outro, reconhecemos a nossa humanidade. Então, essas quatro pessoas (não foi apenas um, foram quatro, um algoz e outras três testemunhas coniventes), que não reconheceram naquele homem, semelhante, um ser na sua mesma condição, eles não se reconhecem a si próprios como humanos, aquele estado de humanidade não lhes pertence. Então, quem são eles? A que nível eles chegaram? E como pode uma cultura ocidental, considerada a mais evoluída do planeta, em tecnologia e ciência, produzir criaturas desse nível?!  A instituição militar que produz isso tem um aspecto degenerado, e não só ela, a família que produziu aqueles homens também é uma instituição degenerada, com certeza a escola onde se formaram tem uma dimensão degenerada, o grupo a que eles pertencem, ou a que pertenceram, a família onde estão hoje,  instalados.  Isso é assombroso!

Não sei o que dizer, intenso é uma palavrinha fraca; visceral é uma palavra razoável, visceral sentimento de revolta, de indignação, de vergonha física, somática, das vísceras, diante do assassinato brutal dessas duas criaturas. O João Pedro expõe a violência de uma vida cortada na sua floração, como qualquer outra vida decepada cruelmente no início da sua floração, sem nenhuma razão, talvez não por um simples descaso ou indiferença, mas por uma hostilidade homicida para com a vida jovem  de um modo geral. Mas o George Floyd nos alvoraça, nos atordoa, nos estonteia, porque  passou  por um martírio assistido! Ele pedindo, ainda na esperança! Ainda acreditando que poderia tocar naquelas criaturas: “Eu não estou respirando!” e eles não ligaram… Não ligaram! COMO SAIR DESSA CENA? Eu não dou conta! Até hoje, 07 de Junho de 2020, ou seja, há 13 dias que o George Floyd foi assassinado, eu ainda me lembro de uma forma tão dilaceradamente doída, que mal contenho o choro com receio  de  parecer piegas, sei que não é, vem o nó  sem que eu chame, mas receio  que possa parecer. Mal contenho esse choro  para deixar registrado  não uma óbvia e prevista  indignação mas, como um açoite fustigante, a CULPA e a VERGONHA, que nos vêm de  uma incômoda e secreta  sensação de termos,  de alguma  forma,  algo a ver, mesmo que remotamente, com o destino que coube a  João Pedro e a George Floyd.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s