Engenheiro civil pede adiamento das eleições do CREA-GO

A votação está prevista para o próximo dia 15 de julho, ainda em pleno período de crise da pandemia do Covid-19. Participam das eleições engenheiros, agrônomos, geólogos, geógrafos, meteorologistas e tecnólogos que atuam em Goiás

O engenheiro civil Idalino Hortêncio

As autoridades de saúde do Brasil e a Organização Mundia de Saúde (OMS) recomendam o adiamento de eventos que possam provocar a aglomeração de pessoas, como uma das ações relevantes para diminuir a propagação do novo coronavírus. Diante dessa recomendação, o engenheiro civil Idalino Hortêncio pede o adiamento das eleições 2020 do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Goiás (CREA-GO), previstas para o próximo dia 15 de julho, data de muita gravidade da pandemia em Goiás e no restante do país.

Os pleitos anteriores, em que são eleitos os presidentes dos Creas e do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) são realizados tradicionalmente no final do ano (outubro/novembro). Mais um motivo para o engenheiro Idalino defender que as eleições sejam realizadas, por exemplo, em 11 de dezembro, Dia do Engenheiro Civil. As eleições 2020 para o CREA-GO devem movimentar mais de 25 mil profissionais e centenas de servidores do Conselho em Goiás, e, no país, devem envolver cerca de 1 milhão de pessoas.

Idalino Hortêncio é um dos quatro candidatos à presidência da entidade. Além de clamar pelo adiamento das eleições por causa da situação de gravidade da saúde pública, o candidato faz duras críticas ao processo eleitoral do Confea e Creas, ainda presencial com a utilização de cédulas de papel e urnas de lona. Mais do que  provocar aglomerações nos pontos de votação e de apuração dos votos, o manuseio das cédulas, dos documentos, do material para assinaturas, entre outros, fere totalmente as orientações das autoridades sanitárias do mundo todo.

Para Idalino este não é o momento de campanhas e eleições, quando milhares de pessoas estão morrendo e outras sofrendo e quando há, em Goiás e em todo o país, profissionais passando por dificuldades financeiras. “O momento era de discutirmos como o Confea e o CREA-GO poderiam ajudar nossos profissionais a enfrentarem a crise, concedendo, por exemplo, algum tipo de auxílio emergencial, auxílio de saúde ou contribuindo com o poder público em decisões técnicas a respeito da continuidade de atividades econômicas ligadas às nossas profissões”, afirma.

Disposto a promover rupturas no modelo de gestão da entidade, Idalino participa do processo eleitoral propondo a modernização e a humanização do CREA-GO.

“A comissão eleitoral do CREA-AL (Crea de alagoas) pediu exoneração de suas funções de controle das eleições em função do risco de vida que correm as pessoas que eventualmente estivessem envolvidas na eleição de 15 de julho”, exemplificou Idalino.

Entrevista PING-PONG
Por que o senhor, na condição de candidato, pede o adiamento das eleições do CREA-GO?
Idalino Hortêncio – Não faz sentido promover, em meio à pandemia, uma eleição com votação presencial, em cédula de papel, enquanto autoridades sanitárias e governos endurecem medidas de isolamento social e até o Congresso Nacional discute o adiamento das eleições municipais. É uma falta de responsabilidade pública e de compromisso social. Como podemos, no meio de uma pandemia, solicitar ao Tribunal Regional Eleitoral de Goiás que viabilize o processo eleitoral do CREA-GO, disponibilizando servidores para atuar em dezenas de municípios, gerando aglomerações nos locais de votação? E, para piorar, o voto é com cédula de papel. Tocar o pleito nestas circunstâncias é nocivo para a própria imagem da entidade.

E como o senhor propõe resolver esta questão?
I.H. – Inicialmente, a eleição seria em novembro, mas a Comissão Eleitoral Federal antecipou para 3 de junho, e recentemente mudaram para 15 de julho. Mas há um consenso entre as autoridades de saúde de que até julho o vírus ainda estará circulando fortemente no país. Proponho que a disputa seja realizada em 11 de dezembro. Assim ganhamos tempo para avaliar a situação da pandemia no Brasil, até lá imagino que teremos uma compreensão melhor sobre o Covid-19 e poderemos agir com mais segurança e responsabilidade. Na verdade, o ideal seria a digitalização do processo eleitoral, possibilitando a votação remota. Hoje nós temos plenas condições para fazermos as eleições por meio remoto, com uma plataforma de votação segura e auditável. Mas o fato é que o Sistema Confea/Crea não investiu nos últimos anos na modernização das ferramentas on-line e dos serviços digitais. É contraproducente o profissional às vezes ter que se deslocar, num dia de trabalho, para ir à outra cidade onde terá uma urna para depositar o voto, por meio de uma cédula de papel.

E, na sua opinião, por que não ocorreu esta modernização nos últimos anos?
I.H. – Falta de visão e, principalmente, falta de vontade. É evidente que, ao criar dificuldades, os atuais dirigentes do sistema conseguem facilitar a própria perpetuação no poder. Para votar, o profissional devidamente habilitado tem que antes fazer uma inscrição, informando em qual município ele vai fazê-lo. E as urnas são distribuídas em poucas cidades. Juntando isto à falta de proximidade da entidade com a base da categoria, gera um grande desestímulo para quem não participa do dia a dia do sistema. A gente percebe um grande desânimo dos colegas de deixarem de lado seu trabalho para ir votar, pois a relação da maior parte deles com o CREA-GO muitas vezes é distante. O resultado é que a média de participação da categoria tem ficado em torno de 10% nas últimas eleições.

Este índice rebaixa muito a representatividade da eleição?
I.H. – Exatamente. A maioria dos profissionais simplesmente ignora o processo eleitoral e quem está no poder hoje não mexe um dedo para incluir os profissionais nas discussões. Desta forma, acabam votando majoritariamente aqueles profissionais que têm vínculos diretos com esses dirigentes. É aquela estratégia arcaica de obstruir o conhecimento e o acesso aos mecanismos de participação para perpetuar o status.

Mas não é possível a oposição buscar uma maior mobilização da categoria contra esta situação que o senhor colocou?
I.H. – Este tem sido nosso trabalho aqui em Goiás, assim como tem ocorrido em outros estados. E por isto há um esforço por parte do atual comando do sistema Confea/Crea em antecipar as eleições, mesmo com o coronavírus, quarentena e tudo mais. Quanto mais curto o prazo para as eleições, menor o espaço para o debate propositivo e menos tempo os candidatos têm para se apresentar. Isto favorece a situação em qualquer circunstância eleitoral, pois eles contam com a estrutura da entidade para mobilizar seu grupo. Representa também um sinal de insegurança da parte da situação quanto ao desfecho das eleições. Muito tempo no poder traz desgastes, cobranças por promessas não cumpridas e eles sabem que esta é uma vulnerabilidade da sua chapa.

Mas como está o debate interno na categoria sobre as eleições?
I.H. – Esta que é a questão: não está. Não existe clima para isto. A preocupação de todos agora não é eleição, mas, sim, a manutenção da própria subsistência. Não é o momento de discutir campanha eleitoral quando temos aí milhares de engenheiros numa situação de vulnerabilidade econômica, com vagas de empregos sendo cortadas por causa da retração da economia, empresas à beira da falência. O momento era de discutirmos como o CREA-GO pode ajudar essas pessoas, concedendo algum auxílio emergencial ou discutindo com o poder público a manutenção de algumas atividades, auxílio de saúde, etc. Mas não é o que temos visto da atual gestão, que reagiu igual a uma avestruz e enfiou a cabeça na terra diante da pandemia. A própria divulgação do processo eleitoral não é feita pelo Conselho, talvez até por vergonha de divulgar uma eleição classista nesse momento.  

Apesar de incomodado com a forma como será realizado o pleito, o senhor mantém-se firme como candidato disposto a romper com o atual modelo de gestão da entidade?
I.H. – Sim. Infelizmente, sou obrigado a participar já que quero mudar a gestão do CREA-GO. Como muitos profissionais ligados ao CREA-GO, fico indignado em ver uma instituição ficar, por quase duas décadas, parada no tempo, e voltada apenas para a sua automanutenção, esquecendo-se que a sua principal função é apoiar os profissionais que, neste momento, inclusive em função da pandemia, enfrentam grandes desafios. É preciso uma gestão ética, transparente, moderna e comprometida com a situação presente e futura de nós profissionais, que promova o exercício de nossas atividades de forma inovadora e conscientes da nossa importância na construção de um mundo novo, um mundo que, impactado como nunca, precisa reinventar caminhos para as relações sociais e de trabalho. Que exige criatividade e inovação na busca de soluções tecnológicas sustentáveis para a continuidade da vida no planeta.

E quais são as propostas do senhor para modernizar o CREA-GO?
I.H. – Meu plano de gestão tem eixos estratégicos que visam fazer do CREA-GO um conselho mais próximo da sociedade, mais humano, mais parceiro e inovador, instrumentalizado para atender aos anseios e às necessidades dos profissionais que são o sustentáculo da entidade. Faremos uma gestão harmoniosa, pautada pela imparcialidade e unidade entre todas as categorias profissionais que reúne. Vamos fortalecer a estrutura física, mas, principalmente, a nossa representatividade, valorizando nossos profissionais do interior do estado. Vamos redirecionar a sede e as inspetorias para serem centros de estudos e pesquisas, difusão e exposição de soluções tecnológicas em todas as áreas. Vamos rever taxas e as ARTs para que o CREA-GO realmente devolva aos profissionais os benefícios de suas contribuições, transformando-as em bens a serem incorporados ao seu dia a dia profissional. Vamos mudar o CREA-GO de verdade. Fazê-lo avançar, de verdade.

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