[Artigo] A fúria da vaidade

O cantor Pedro Scalon

A definição da consciência constitui um problema clássico. Libet (1987). “Acredito que nossa única saída seja adotar e estruturar um novo tipo de educação; aquela que traga à tona potenciais humanos ainda não desenvolvidos. As novas gerações precisam ser dez vezes mais inteligentes, dez vezes mais cultas, dez vezes mais amorosas, dez vezes mais desapegadas, dez vezes mais sensíveis, dez vezes mais autênticas, dez vezes mais espiritualistas do que todas as gerações que nos precederam, ou corremos o risco de não ser capazes de sustentar o Louvre da civilização por falta de uma grandeza de alma que, ironicamente, dorme dentro de nós.”

Quando aprendemos a pensar, projetamos pelas potencialidades da espécie, penetramos assim na complexidade. E porque pensamos, começamos a julgar, trajamos e provamos do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, e somos momentaneamente expulsos do habitação da inocência.

O que faz de você é a soma de todas as representações que você faz dos outros e do seu ambiente, que podem se expandir a cada dia, desde que você mantenha sua consciência aberta.

A emergência da linguagem como meio de comunicação interindividual, em sua forma típica da espécie humana, seria então um elemento diferenciador importante. Nesta perspectiva, embora não se considere a existência de consciência como um privilégio da espécie humana, pode-se atribuir à consciência humana uma nova modalidade de existência, que não seria encontrada em outras espécies, a “consciência de ser consciente” ou autoconsciência. Ao mesmo tempo, considera-se que outras espécies compartilhem com a humana outras modalidades de processamento, o que torna o estudo do cérebro e da cognição nestes animais, em áreas como a psicobiologia, neurologia cognitiva e etologia, de grande utilidade para se entender aspectos homólogos da consciência humana.

Pois bem; um assunto pertinente sobre o nosso tempo seria o comportamento em redes sociais, que a cada dia se torna mais “rede antissociais” e toda fúria de vaidade que assombra sobre ela, deixando os nossos estados de consciência esquizofrênicos e sem o menor rastro de sentido.

Hoje acordamos e disparamos “self´s” para o mundo ou curtimos com toda  intensidade em busca da esperança de sermos compreendidos ou desejados por algum ângulo da consciência humana. Sabemos, como explicou Sigmund Freud que todos estamos em busca de reconhecimento, poder ou sexo. …Ok, mais como atores em um teatro vazio na espera de aplausos sinceros, ou para ser mais claro, com rostos frios de filtros de distorção de realidade?

Como diria Raul Santos Seixas, quando acabar o maluco sou eu…

Costumo dizer que a única obscenidade que conheço é a violência, e estamos nos violentando todos os dias, a cada dia com mais frieza e cortes mais profundos. isso implica mordidas profundas, feridas a  sobre a nossa consciência

Mais para falarmos melhor sobre isso, e tentar trazer uma lucidez de conhecimento sobre a nossa realidade virtual, primeiramente precisamos nos entender sobre o que seria a nossa “self”:

O conceito de self é suportado por uma ampla rede neuronal, envolvendo o sistema límbico e subsistemas corticais, incluindo as áreas clássicas da linguagem (áreas de Broca e Wernicke). Estes subsistemas cerebrais apoiam e são implicados na mediação do pensamento linguisticamente formulado, em especial a forma de pensamento linguístico sem vocalização chamado de “fala interna” (inner speech; um termo originalmente usado por Luria (vide Luria, 1973) e discutido em Stuss & Benson, 1990), que desempenha papel central na vida mental do self. As áreas de linguagem têm conexões corticais diversas, recebendo informação aferente (o que permite que se façam declarações sobre estados do corpo e o mundo), e também informação sobre comportamentos planejados, o que permite a formulação das intenções. A parte crítica do sistema que suporta o conceito de self é provavelmente o córtex pré-frontal, que está envolvido na coordenação de intenções e metas que guiam o uso da linguagem e outras formas de comportamento. Evidências neste sentido advêm principalmente de estudos dos correlatos neurológicos de distúrbios graves que afetem o sentido de self, como a esquizofrenia.

Agora, como e onde percebemos a linha tênue do conceito de imagem abstrata com o conceito de uma personalidade esquizofrênica:

As categorias da consciência abstrata não devem ser necessariamente identificadas com as representações linguisticamente formuladas, típicas da consciência humana; elas devem ser entendidas como representações de classes de objetos de acordo com características perceptuais e pragmáticas, podendo adquirir a forma de imagens ou signos não-linguísticos. Isto implica que a consciência abstrata teria uma estrutura proposicional, mas não necessariamente linguística.

Consciência e o julgamento trazem consigo o medo e, para tranquilizá-lo, mil desejos quase anti nutarias. Dessa Caixa de pandora, saem a fúria e a vaidade, despontam os conflitos, emergem a segregação e a divisão de classes, espalham-se a discórdia, a violência e todo o seu diabólico aparato ideológico e ferramental. E, então, conhecemos as proibições, e a desconfiança, e  a burocracia, e a ganância, e os sistemas que garantem, por toda a parte, o domínio … tudo, tudo se complica, e o homem se faz, enfim, prisioneiro de suas próprias ficções coletivas, hoje a mais natural “as supostas “rede sociais” um teatro onde somos atores e nós assistimos ao mesmo tempo.

O autoconhecimento não é um presente de existência nem nasce da necessidade de sobrevivência, tampouco da sede de poder ou sexo. Por sinal, ele não faz questão de ser mergulhado, não se esforça para seduzir, não se impõe biologicamente ou culturalmente. Apenas permanece, fora do tempo e do espaço, acessível para quem a souber cultivar. Silenciosa, aguarda-nos como aqueles mestres serenos que se sentam sob a cúpula do seu estrelato. Ninguém parece ter tempo para se aproximar de si. Estão todos muitos ocupados, complicando-se, afastando-se do centro de seu presente.

Recusam friamente o convite delicado e insistente que ela faz para limparem os olhos do espírito antes de mirar mais uma vez na face real.

Somente aqueles que a alcançam por escolha enxergam plenamente.

A afirmação que o filósofo espanhol Ortega y Gasset (1883-1995)fez na década de 1930 parece mais atual hoje do que então, “ Nossos problemas são arqui-intrincados. O número de pessoas cuja mente está a altura desses problemas é cada vez menor”

“Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”

(Oscar Wilde)

Whatsapp! …rede, cadeias sociais?

É tempo de refletir.

*Pedro Scalon Netto é artista, músico, historiador e escritor*

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s