ARTIGO: Permanências de Agosto

“Parte de mim me expulsa, outra se preserva, outra se suicida e a maior me reconhece.” Surpreendeu-se, no entanto com a semente do amor que havia cultivado até mesmo sem saber através do poder de amor, que agora urgia. Tudo isso estava ao seu alcance, e aceitava assim. Não mais o desenho.  A porta escancarada percutia a visão, enxergou-se luz, parte, todo, tudo, platéia, álcool, partida, chegada… e semente.

“Sendo assim um anjo me ampara em suas asas brancas.”Pelo caminho inverso, pesou a sua capacidade de sentir, visualizou – se pluma ao voar por entre as pedras, rio, ou mesmo sobre o céu azul. O sol aquecendo a massa, e a leve aragem a provocar o movimento ao acaso, sem direção. Lentamente pousa no úmido retido entre os tons de musgos, das pedras, o cheiro quase bolor, escorregando por entre os insetos, deixando por um instante preso e fascinado, ignora o calor que recebe e resseca as folhas mais altas em uma cumplicidade com os vermes, as raízes e todas as matérias patentemente estáticas. Agarra – se ao vento, na terra que pende, acaricia o liso e gélido, esconde-se em baixo ou entre eles, enfrenta as auroras e o crepúsculo, parte, mas está ao mesmo tempo com o que foi e o que vem, contendo tudo, no entanto, descaradamente, explicitamente o vento cúmplice do barulho, do terror, do temor da noite, mas nada teme. E fica assim por um tempo assistindo a vida, em cima do muro.

Pelo caminho inverso embora que ainda às vezes doesse no exercício de encontrar-se pelo outro, ele se viu, pertencia ao mundo e tudo lhe pertencia, de cada ser e para cada ser, a pessoa via e se doava um pouco. Compunha agora um novo ser, eu mesmo.

Partida na complacência, feito de todos, feito pedra, d’água, de som e de musgo, feito de um sentimento macro e micro das coisas do mundo. Agora sim eu compreendo o processo da criação, no qual magicamente tudo se regenera a partir da simbiose. Compreendo no pecado e na redenção, sendo o divino e o diabólico. Sendo paradoxalmente extremo por ser tudo, e por ser todos.

Eu aceito agora minha enfermidade sobre minha eternidade através dessa mesma enfermidade. Eu aceito agora todos como são, foram ou de alguma forma deveriam ser. Adentro agora  por entre os labirintos sujos da alma e do mundo, e nele me vi pleno, completo na sua incompletude, eu me rendo e  perdôo através da comunhão, isso é a minha arma sobre o pulso frágil do mundo e do meu tempo.

E minha compaixão abrangeu todos os tipos de sentimento e tomou conta do entendimento. Hoje, agora, instante, num voo leve me vejo, dispo-me sem medo dos disfarces tolos do mundo, sinto a centelha divina, memória de luz. Sendo assim, reconheço-me.

O cantor Pedro Scalon

Escrito por: Pedro Scalon Netto

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