Enchentes, uma omissão institucionalizada

O período chuvoso que logo se aproxima e com ele a preocupação de inundações também, inclusive porque os pontos considerados de alagamento subiram substancialmente na Capital, chegando a quase cem locais. O engenheiro civil Idalino Serra Hortêncio conta detalhes sobre esse problema que dificulta o dia a dia dos goianienses

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Goiânia é conhecida por ser a cidade de comida boa, por seus belos parques, arborização em diversos pontos da Capital e muito mais. Mas não é só de flores que vive uma Metrópole. Com a aproximação do período de chuva no Estado, a preocupação com os alagamentos se tornam eminentes. De uns anos para cá, o crescimento desordenado da população goiana afeta diretamente as condições físicas da cidade, já são quase cem locais considerados pontos de alagamentos e que necessitam de olhar mais atento por parte da prefeitura. Idalino Serra Hortêncio, Engenheiro Civil e de Segurança do Trabalho conta detalhes sobre esse problema que dificulta o dia a dia dos goianienses.

Entre os meses de outubro a março, chuvas rápidas, porém intensas, ocorrem com frequência em Goiânia e favorecem o aumento do volume das águas nos córregos e rios que cortam a malha urbana, fator que torna maior o risco de inundações em determinados locais. Além disso, a impermeabilização das vias públicas implica no escoamento superficial das águas pluviais e a falta de planejamento da infraestrutura, que considere as características das chuvas e do relevo da cidade, facilitam a ocorrência de alagamentos em diversos pontos de Goiânia. Avenidas conhecidas, como a T9, T7, T10, entre outras, estão na lista de endereços supervisionados pela Defesa Civil, órgão responsável por identificar e acompanhar esses locais.

Repetindo o ciclo, imposto pela natureza, retorna o período das chuvas, grandes precipitações, tecnicamente analisando, nada mais que uma cíclica recarga dos lençóis freáticos. “Hidrologicamente podemos considerar como ‘intensas’, as chuvas de curta duração. A relação das chuvas intensas com as enchentes é que, mesmo sendo rápida, sua intensidade não permite que o volume precipitado escoe a tempo de não represar as águas nos pontos de estrangulamento, que costumam ser os bueiros e as pontes. A enxurrada, por outro lado, carrega consigo o lixo jogado nas ruas e encostas, reduzindo ou obstruindo as vias de drenagem pluvial, quando existem”, explica Idalino.

O engenheiro civil Idalino Hortêncio

De acordo com Idalino várias são as causas das enchentes urbanas, mas, entre as principais, o tipo de piso, lixo nos bueiros, erros de projeto, drenagem insuficiente e a ocupação irregular do solo. “Impermeabilização. Sem dúvida, este é o maior vilão das enchentes. O trajeto da água da chuva, depois que atinge o solo, são: para cima – evaporação, para o lado – escorrimento superficial ou para baixo – infiltração. Entretanto, só haverá infiltração se o piso for permeável ou semipermeável, o que não acontece com o concreto, com o asfalto ou com os paralelepípedos das ruas brasileiras. Não infiltrando, grande parte do volume precipitado, em vez de se dirigir para os lençóis subterrâneos, engrossará as águas de escorrimento superficial”, conta o engenheiro.

“Por outro lado, observamos também que, os munícipios buscando sua satisfação única, em detrimento à convivência social, utilizam-se de meios não legais para angariar áreas afrontando os ordenamentos vigentes, senão vejamos: as obras são projetadas em conformidade com os códigos vigentes, uma vez emitido os legais alvarás estas são modificadas para atender exclusivamente seus detentores da posse”, continua dizendo Idalino. Então qual a razão do poder público não fiscalizar os logradouros da sociedade, garantindo as áreas permeáveis dos imóveis? Onde o poder público se baliza para virar as costas para a solução dos problemas que afligem a sociedade quando o tempo se direciona para as naturais precipitações?

Conforme conta o engenheiro, soluções existem, basta ter vontade de encontrá-las. “Que tal o poder público direcionar a recarga dos lençóis subterrâneos através de poços de captação das águas pluviais, ao invés de serem lançadas diretamente nas áreas impermeáveis; que tal o poder público cobrar de todos os munícipes a manutenção das áreas permeáveis em seus logradouros; visto que na grande maioria dos imóveis toda a projeção do solo está coberta; e utilizando do poder de polícia garantir que os direitos coletivos e da sociedade sobrepõem aqueles individuais”.Para a implementação das diversas e necessárias medidas técnicas, há uma elementar necessidade no campo da gestão. “A perfeita articulação entre as administrações públicas federal, estaduais e municipais, uma vez que hoje, incompreensivelmente, são instâncias que não se comunicam e não somam esforços. Solução para as enchentes? Apenas uma maior responsabilidade pública e uma salutar dose de respeito à população”, reflete Idalino. Ele complementa dizendo que ao invés de criar inúmeras obras de engenharia, na busca de soluções que minimizem as consequências das constantes inundações, ele acredita que os governantes deveriam difundir a educação de todos os brasileiros.

“Acredito que fazer com que as pessoas não utilizem as áreas de proteção ambiental, seja de forma transitória ou permanente; não utilizem as ruas e os passeios públicos como lixeiras pessoais; e não tornem impermeáveis as áreas de recarga dos lençóis subterrâneos, seria a solução para transformar a sociedade em uma constante e dinâmica convivência natural dos homens com a natureza”, diz Idalino. Essas possibilidades, além de melhorar a engenharia da cidade, ajuda no progresso social da Capital. Muitas pessoas morrem em detrimento de enchentes, perdem suas casas ou sofrem outras consequências do descaso. Ou seja, é um problema social que necessita de ações efetivas.

“Goianiense que sou, sofro com o crescimento desordenado de nossa cidade. Sou do tempo em que córregos eram vias de alegria, de encanto, de satisfação, pois eles nos serviam com suas caudalosas corredeiras, com suas verdes margens e com suas matas, onde buscávamos nossas traves das goleiras, onde marcávamos nossas grandiosas partidas de futebol varzeano. Sou daquele tempo onde o respeito aos direitos de outros sempre suplantavam os nossos. Sou daquele tempo em que o jeitinho brasileiro era simplesmente a graça do sorrir, e não o locupletar da desgraça alheia em benefício pessoal”, finaliza o engenheiro civil Idalino Serra Hortêncio.

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