Dores nos membros “fantasmas”

Ortopedista Paulo Corá, especialista em dor, esclarece possíveis motivos e tratamentos para pessoas que sofrem com espasmos de dor em órgãos apendiculares como braços, pernas. mãos e pés

Ao longo da vida, todas as pessoas estão sujeitas a acidentes ou a doenças que levem a perda de membros do corpo, ou também conhecidos como órgãos apendiculares (braços, pernas, mãos e pés). Frequentemente os pacientes que passam por esse trauma continuam a ter uma experiência sensorial vívida do membro ausente. A sensação da presença do membro ou do órgão após a sua extirpação, descrita por quase todos os indivíduos que sofreram amputação, caracteriza um distúrbio conhecido como síndrome ou sensação do membro fantasma.

Esse assunto pouco discutido, agora é tema do ‘I Webinar Tecnologia, Inclusão e Desporto: inovações alcançadas pelos amputados’. O evento online terá um pré evento nesta quinta-feira (15/08), das 19h30 até às 22h. Já nos dias 17 e 18 de outubro, das 8h às 18h por meio do Zoom se inicia de fato esse encontro virtual. Participam mais de 30 profissionais qualificados, atletas renomados e palestrantes incríveis.

Paulo Corá, médico ortopedista é um dos integrantes dessa conversa no dia 15, que tem como objetivo proporcionar conteúdos de qualidade com informações relevantes para os amputados, profissionais que atuam com esse público e para a população em geral. As palestras serão transmitidas ao vivo e durante o evento de caráter científico e informativo, cursos serão sorteados. O tema é de extrema importância porque uma parcela muito grande de pacientes nessas condições sente a presença do membro ausente e sente seus movimentos, embora isso não seja mais possível. De acordo com o médico ortopedista Paulo Corá este deveria ser um quadro não doloroso e, não interferir nas atividades normais da vida diária, mas não é a realidade.

O médico que tem estudo avançado e é pós-graduado em dor, com certificação pela Associação Médica Brasileira (AMB), assim como membro da Sociedade Brasileira para Estudo da Dor (SBED), diz que além da dor pós-operatória do coto, localizada na extremidade da amputação, um percentual significativo dos pacientes refere-se a dor residual por muito tempo depois da cicatrização da amputação. “Até 85% dos pacientes amputados queixam-se de dor do membro fantasma (ou simplesmente dor fantasma), definida como a sensação dolorosa referente ao membro perdido. Este quadro evidencia-se por dor aguda em pontada, ferroada ou picada na região correspondente à porção do membro que foi amputado”.

Outros sintomas são: dormência, queimação, câimbra, ilusão vívida do movimento do membro fantasma, ou até mesmo, apenas a sensação de sua existência. Além da dor relacionada diretamente com o local da amputação, muitos pacientes desenvolvem dores nas costas (dorsalgia) atribuída à inatividade e à alteração da biomecânica da marcha. “Essas causas secundárias da dor podem interferir mais nas atividades da vida diária do que a dor do membro fantasma, ou a dor do coto”, explica o médico. Ele continua: “A sensação do membro fantasma e a dor têm sido associados a impulsos nervosos provenientes da cicatriz de tecido nervoso no coto amputado”.

Possíveis tratamentos
Segundo Paulo, em alguns casos, a remoção da cicatriz ou a secção dos nervos sensoriais logo acima dela pode aliviar a dor. No entanto, estudos de imagem do cérebro de pessoas que tiveram membros amputados sugerem que as sensações de membro fantasma sejam causadas por um rearranjo de circuitos no córtex cerebral. “À medida que as fibras nervosas que se originavam do membro amputado definham, as fibras adjacentes expandem-se para ocupar o lugar que elas ocupavam. As estratégias terapêuticas para pacientes amputados dependem do tipo de dor experimentada, e da avaliação do profissional assistente”.

“A dor musculoesquelética é mais bem controlada com fisioterapia e analgésicos orais. Já para a dor do membro fantasma, embora existam poucos estudos que descrevam um tratamento bem-sucedido nestes casos, os antidepressivos e anticonvulsivantes são os fármacos orais mais comumente utilizados”, revela o ortopedista. De acordo com ele as porções do corpo que mais frequentemente estão associadas ao desenvolvimento desse fenômeno são os membros superiores (braços, mãos e dedos) ou membros inferiores (pernas, pés e artelhos), mas também pode ocorrer em outras partes do corpo como na face (nariz), mamas e órgãos genitais.

O ortopedista Paulo Corá

Impacto psicológico
A imagem corporal é construída de acordo com as percepções, ideias e emoções sobre o corpo e suas experiências, podendo ser, constantemente, mudada. Depois de uma amputação, o indivíduo sofre um grande impacto psicológico e vários distúrbios emocionais surgem na adaptação física e social, o que lhe faz enfrentar uma nova situação. Há uma tendência de se querer manter, inconscientemente, a integridade do corpo. “Assim, como o ser humano está acostumado a ter um corpo por completo, o membro fantasma acaba sendo a expressão de uma dificuldade de adaptação a um defeito súbito de uma parte periférica importante do corpo”, conta Paulo.

“Além desse fator, o córtex cerebral, que possui um mapa sensorial das partes do corpo, ainda possui uma área de representação da região amputada, o que dificulta que as sensações corporais provenientes daquela região sejam cessadas por completo; e é por isso que o paciente segue tendo sensações no membro amputado”, revela o médico. Apesar de não se saber ao certo a origem da sensação do membro fantasma, sabe-se que esta é baseada tanto em fatores psíquicos, como em fatores fisiológicos. Sabe-se também que ainda não existe um tratamento específico para tal fenômeno. Entretanto, existem terapias e medicamentos que são utilizados para a redução da dor, sem, contudo, terem se mostrado eficazes para a cura da dor fantasma e de suas sensações.

Desse modo, como não existe, ainda, uma cura para o fenômeno das sensações fantasmas, Paulo enfatiza que é preciso orientar o paciente amputado sobre o quadro, fazendo-o compreender os fatores causais destas sensações e encorajando-o a adaptar-se à situação. Em caso de dor, deve-se tentar instituir a terapêutica clínica mais conveniente para o caso, a critério do médico. “O bom controle metabólico da doença de base é fundamental para prevenir novas complicações”. O médico ortopedista lembra que é importante consultar um especialista para o diagnóstico preciso e encaminhamento do melhor tratamento com uma equipe multiprofissional para que haja os melhores resultados para cada condição.

Paulo Corá finaliza destacando a importância da parceria com os fisioterapeutas e psicólogos nesses casos. “Os fisioterapeutas são de extrema importância, porque desenvolvem métodos como terapia do espelho e dessensibilização do coto que ajudam no tratamento de dores fantasmas. Já os psicólogos entram com apoio emocional de aceitação, para que quaisquer dores advindas de traumas psicológicos sejam dissolvidas”, explica. De acordo com pesquisas, no geral, a dor do membro fantasma dos amputados foi reduzida em 46% desde o primeiro exame até a terceira sessão de tratamentos como esses.

Terapia de espelho são exercícios simétricos em um espelho onde os pacientes ‘veem’ seu membro fantasma se mover como se realmente estivesse lá. “A terapia de espelho funciona como uma espécie de enganar o cérebro com insumos visuais”, diz o médico. Logo a dessensibilização do coto é um estímulo externo realizado com a ajuda de materiais de superfície áspera, fina ou estruturas de diferentes temperaturas que ajudam a devolver a sensibilidade na região amputada.  “A dessensibilização do coto auxilia no processo de cicatrização além de diminuir o risco do paciente sofrer com a síndrome do membro fantasma”, finaliza o ortopedista Paulo Corá.

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