HDMI realiza pela 1ª vez parto gemelar por meio de uma barriga solidária, de um casal homoafetivo

Prematuros de apenas 25 semanas, Gael e Mariana estão há quase quatro meses internados na UTIN da unidade com evolução significativa. A expectativa de alta é até o final de novembro

No dia 12 de junho de 2021, uma grávida com 24 semanas de idade gestacional deu entrada no Hospital e Maternidade Dona Íris (HMDI). Apesar de gerar as vidas dos gemelares Gael e Mariana há cinco meses, não era, no entanto, a mãe dos bebês. Dinamárcia Azevedo, enfermeira de 39 anos, era barriga solidária do jornalista Johny Cândido e do chef Pedro Ernesto Jacob. Foi o primeiro caso registrado na unidade, e comoveu a equipe.

Primeira profissional a ter contato com Dinamárcia, a enfermeira obstétrica Renata Ferreira da Silva conta que ficou impressionada com a situação, e a vontade era de que todos ficassem bem. “Recebi ela na Emergência, o pai acompanhando e muito preocupado, porque a bolsa tinha rompido. Falei para se acalmarem, que daria certo, e logo ele disse que eram prematuros. Então, os encaminhei para o consultório médico e depois, quando voltou à sala de observação, me contou que era barriga solidária. Passaram várias perguntas na minha cabeça, sobre como seria depois, se ela iria ter contato com os bebês; mas eu queria muito que desse certo”, relata Renata, reforçando que a situação não interferiu em nada no atendimento, realizado com o mesmo cuidado de sempre.

Logo após o atendimento, Dinamárcia foi internada para manter a gestação pelo máximo de tempo possível. “Sempre fui muito otimista e positivo, não me reconhecia. Tinha medo de perdê-los, perder o meu sonho”, discorre Johny ao pontuar que o cuidado dos profissionais da unidade o ajudaram a ficar mais confiante. “Toda equipe foi um amor, nos tratavam super bem. Estávamos na nossa suíte com uma comida gostosa, os profissionais que vinham servir sempre muito carinhosos, perguntavam da nossa história e assim fui criando laços”, afirma.

Uma semana depois da internação, na madrugada de 19 de junho, os bebês nasceram por meio de uma cesariana. Mariana com 30 centímetros e 540 gramas; Gael com 35 centímetros e 875 gramas. Logo em seguida, foram levados à Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN).

“Fiquei com receio no início por ser uma unidade SUS, mas hoje sei que meus filhos estão vivos porque vim para cá”, diz o jornalista, reforçando a dedicação dos profissionais da Maternidade Dona Iris: “Não preciso esperar para as coisas acontecerem. A grande maioria são educados, têm amor pelo que fazem. Todos desde a recepção, técnicos, enfermeiros, médicos, assistentes sociais, psicólogos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, nutricionistas, cozinheiros, pessoal da limpeza, etc. Eu inclusive estou fazendo terapia aqui. É toda uma equipe em prol da minha família. Tudo isso mudou minha concepção de SUS. Vivi minha própria experiência”, comemora.

Humanização e Diversidade

No HMDI, a UTIN é humanizada, ou seja, um familiar do recém-nascido pode acompanhá-lo durante todo o tempo que estiver internado. Quando as mães não podem ficar com os bebês, avós, tias ou irmãs fazem esse papel, sempre uma mulher. No caso de Mariana e Gael, o papai Johny é quem estaria ali. A presença de um homem em um meio tomado por mulheres foi abordado de forma delicada e respeitosa pelo Serviço Social e pela equipe do da UTIN.

“Tudo isso é muito novo para nós, mas sem dúvidas nos levou a refletir nossas ações e a pensar em estratégias mais inclusivas. Em conjunto com a equipe multiprofissional, pautados no Estatuto da Criança e do Adolescente no que se refere à garantia de um dos pais ou responsável legal ser acompanhante e ter condições de permanência junto aos filhos, dialogamos com toda equipe e foi garantido a Johny que acompanhasse os bebês conforme seu desejo”, explica a assistente social Luzinete Resende.

Márcia Cortijo, intensivista pediátrica e neonatologita da UTIN HMDI, assinala que o foco principal do atendimento são os recém-nascidos, independente do que vem com eles, mas que a história de cada um auxilia no segmento que será dado em cada caso. “Temos uma rotina, mas olhamos cada paciente individualmente, damos conforme a necessidade. Com eles foi diferente mesmo, porque não tinha o perfil masculino aqui, esse perfil de família, então aprendemos juntos. Lembro dele (Johny) me perguntar ‘drª, onde eu vou ficar’, e cuidamos para que em nenhum momento ele se sentisse excluído ou constrangido. É uma rotina tão difícil aqui dentro, e se sentir confortável, confiando em todo mundo, é importante”, pondera a médica.

Para Johny, o fato dele estar fisicamente presente com os bebês por tanto tempo auxiliou muito na evolução. “Eu percebo que eles reconhecem minha voz. A UTIN humanizada fez e está fazendo toda diferença na recuperação dos meus filhos”, conta. “Márcia e Larissa, pediatras, fizeram toda diferença desde o início. Explicaram a rotina e me deixaram confortável e mais seguro”, garante o jornalista.

O encontro

Juntos há sete anos, Johny e Pedro tinham o sonho de viver a paternidade: “Sempre quis ser pai. Quando entendi e aceitei minha orientação sexual, vi esse sonho distante, mas não desisti. Sempre falei isso para o Pedro, que compartilhava do meu sonho, e fomos em busca de todas as formas de fazer dar certo”, diz o jornalista.

A partir do momento que decidiram realizar esse objetivo, entraram em contato com especialistas para entender sobre o processo, que é mais complexo e cheio de regras do que se pode imaginar. E além disso, era necessário encontrar uma mulher disposta a ter a gestação de forma solidária, já que no Brasil é proibida a chamada ‘barriga de aluguel’, em que se paga a pessoa para gestar. Após muitas conversas e buscas, chegaram à Dinamárcia, diretora do Cais Amendoeiras. “Foi um gesto de amor!”, lembra emocionado o jornalista.

Dina, como é carinhosamente chamada pelos pais de primeira viagem, conta que não quis ou quer ter filhos, mas tinha vontade de experienciar à gravidez. “Quando escutei a história, logo falei que me interessava em ser uma barriga solidária deles. Logo conheci Johny e Pedro, daí então passamos a andar juntos e ocorreu muito rápido o processo. Foi dando tudo muito certo, fizemos a inseminação e ‘pegou’ de primeira, com os gêmeos”, conta.

Johny lembra que, antes da gravidez, ele, Pedro e Dina fizeram viagens e saíram juntos para se conhecerem e ela ter certeza que desejaria ser uma barriga solidária para o casal. “Foi um encontro de almas, temos histórias muito parecidas”, conta Johny. Questionada sobre o motivo de ter aceitado, Dina diz: “Nossa missão na Terra é servir um ao outro. Quando entendermos isso, que somos irmãos seremos evoluídos. Podemos fazer o bem. O universo coloca a gente onde devemos estar”.

Johny Cândido, Dinamárcia Azevedo (a Barriga Solidária) e Pedro Ernesto no Chá Revelação dos gêmeos realizado dia 03-04-2021 (Crédito dafoto – Samara Chrysttiny)

O processo

A legislação brasileira ampara a Barriga Solidária desde que a genitora seja parente de até quarto grau dos pais que registrarão o bebê. Como Dinamárcia não é parente de nenhum dos dois, foi necessário abrir um processo junto ao Conselho Regional de Medicina de Goiás (CRM-GO) para autorização. Dina seria um útero de substituição. Os óvulos vieram de um banco de doadoras anonimas.

Johny explica que eles queriam os bebês o mais parecido com eles possível, então pediram óvulos “de uma mulher morena ou parda, estatura mediana, cabelos e olhos castanhos”. Coletaram 12 óvulos, seis fecundados com sêmem de Johny e seis de Pedro, e inseminaram um de cada. “Saiu tudo conforme planejado, tivemos dois embriões implantados”.

Dina passou por acompanhamento médico e preparação do útero para receber os embriões. Em 12 de janeiro de 2021, foi feita a fertilização e após 21 dias, a confirmação do Beta positivo: grávida.

A gestação

Segundo Dinnamárcia, o cuidado com os bebês sempre foi latente, mas não sentiu a vontade de ser mãe aflorar em nenhum momento da gestação: “Tinha medo de chegar em algum ponto da gravidez e sentir o amor incondicional, principalmente quando nascessem. Na hora que a bolsa rompeu, tive um sentimento ruim de que afetasse as crianças, mas quando aconteceu o parto, é como se fossem sobrinhos meus. Sinto muito amor pelas crianças, mas não é um sentimento materno. Vim preparada para isso”.

Dina assegura que não passaria pela experiência novamente pelas mudanças no corpo e pelo incômodo do pós-operatório, mas indica às mulheres que desejam ser barriga solidária. “É muito gratificante ver a felicidade do outro. Tive a oportunidade de fazer uma família feliz, as avós estão radiantes. Para quem tem vontade de engravidar e tem a oportunidade, com responsabilidade, acredito que valha a pena!”, finaliza.

Matéria escrita por: Monique Pacheco, assessora de comunicação da Fundac (Fundação de Apoio ao Hospital das Clínicas da UFG)

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