Registro de bebês incompatíveis com a vida traz outro olhar para o luto

A fotógrafa Samara Christiny Estevão apresenta o projeto inédito em Goiás, ‘Acolher, ouvir e cuidar’

Gerar uma vida traz grandes mudanças para os pais, enaltece a força da mulher e revela um companheiro em muitos homens. Mas por muitas vezes esse sonho é cessado por problemas imprevisíveis, e assim, frustrações são geradas. A morte do bebê é fonte de grande dor para seus pais, pois toda a idealização e expectativas criadas acerca da criança são bruscamente desconstruídas e substituídas pelo luto. Pensando em eternizar esses bebês natimortos e neomortos, a fotógrafa Samara Christiny Estevão idealizou o projeto ‘Acolher, ouvir e cuidar’.

Luto é um assunto delicado, ainda mais quando se trata de bebês. Mas a fotógrafa Samara Christiny Estevão, especialista em fotos de parto, trata o processo de luto dessas mães com sensibilidade e empatia. “Por estar a muitos anos vivendo a emoção do nascimento ao lado dessas mães, me sinto próxima e na obrigação de acolhê-las quando algo não sai como planejamos”, expõe a fotógrafa. Assim, ela criou o projeto ‘Acolher, ouvir e cuidar’ como forma de ajudar essas mães a passar pelo luto.

O projeto busca atender ao pedido de registro fotográfico e de vídeo das mães que possuem bebês natimortos, aquele que a morte ocorre dentro do útero, ou neomortos, quando a morte ocorre até sete dias após o nascimento. “Sensibilizadas pela fragilidade do momento, essas mães querem levar com elas em imagem esse suspiro de aconchego. O intuito é gerar memórias desse dia especial para que as mães não vivam um luto invisível”, explica. O trabalho é algo inédito em Goiás e já tem ganhado admiradores.

A fotógrafa Samara Christiny Estevão

Amélia Cristina estava à espera do seu terceiro filho, com 16 semanas descobriu que a criança tinha uma síndrome que a impedia de se desenvolver. “Mesmo sabendo dos obstáculos, eu decidi continuar com a minha gravidez até quando fosse possível. Mas com 33 semanas soubemos do inevitável para a medicina”. Rafael nasceu e foi direto para os braços dos pais, para que eles pudessem experimentar aquele amor que transcendeu. Apesar de triste, a despedida foi linda. E é nessa hora que o registro torna-se importante.

Normalmente, nesses casos, o recém-nascido é levado imediatamente, não dando aos pais a oportunidade de conhecer quem eles dedicaram tanto amor. Na contramão dessa realidade, Samara busca mudar um pouco a concepção desse momento. “A fotografia desses filhos é uma forma de acolher, ouvir e cuidar dessas famílias”, diz a fotógrafa. Para a obstetra Fernanda Marques, esse trabalho só humaniza o que a equipe já oferece. “Eu tenho 20 anos de carreira e enxergo esse projeto como parte da evolução da obstetrícia”.

Mesmo sem a convivência com a criança, o luto e a dor são reais. A psicóloga neonatal Mariana Saloio diz que é preciso mais que palavras para consolar esses pais, muitas vezes solitários. “Estar presente para o que essa família precisar, seja na escuta ou no silêncio, é o que importa”. Cada um tem o seu processo de superação, mas sempre tenha em mente que respeitar e acolher faz toda diferença. “Eu agradeço por ter tido a oportunidade de registrar os poucos momentos que tive com meu filho. Revisito sempre esse vídeo”, finaliza Amélia Cristina. Não importa quanto tempo de vida, cada filho é único e será sempre lembrado.

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